Mais de sete décadas depois, a obra de Vadico ganha novos contornos com a descoberta de 541 páginas inéditas que redefinem sua dimensão na música brasileira.
Conhecido por clássicos ao lado de Noel Rosa, como Feitio de Oração e Feitiço da Vila, Oswaldo Gogliano (1910–1962), o Vadico, volta ao debate com o lançamento do box Vadico, do Selo Sesc, disponível nas plataformas digitais em 31 de julho. O projeto reúne três CDs, um livro bilíngue e gravações inéditas construídas a partir de partituras que permaneceram desconhecidas por mais de 70 anos.
“O desafio era fazer com que Vadico fosse entendido por quem ele foi e trazer seu nome para a linha de frente dos artistas que contribuíram para quem hoje somos”
Com direção musical e regência de Franco Galvão, responsável pela pesquisa, o trabalho apresenta três dimensões do compositor: diretor musical, instrumentista e autor de canções. São 37 faixas que atravessam música de concerto, obras instrumentais e repertórios raramente executados desde sua criação.
Um arquivo esquecido que muda a narrativa
A pesquisa localizou as 541 páginas de partituras nos arquivos da Southern Illinois University, nos Estados Unidos, escritas durante as décadas de 1940 e 1950, período em que Vadico viveu no país. O material desencadeou um processo de catalogação, restauração e reconstrução musical, ampliado por investigações em acervos brasileiros como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles e coleções particulares.
O resultado é um inventário mais amplo da produção do artista, frequentemente reduzido à parceria com Noel Rosa. O projeto envolve mais de 170 músicos e inclui um livro bilíngue de 136 páginas, com textos de Nei Lopes e do próprio Franco Galvão.
Muito além de Noel Rosa
A redescoberta também reposiciona Vadico no cenário histórico. Ele atuou como diretor musical de Carmen Miranda em Hollywood, regeu a orquestra de Katherine Dunham, trabalhou como arranjador em rádios e gravadoras e colaborou com nomes como Pixinguinha, Dorival Caymmi e Baden Powell. Chegou ainda a ser convidado por Vinicius de Moraes para compor Orfeu da Conceição antes da escolha de Tom Jobim.
Todas as gravações do box foram produzidas especialmente para o projeto, a partir tanto das partituras inéditas quanto de novas leituras de obras raras. “Enquanto criávamos, nos criávamos; enquanto significávamos, nos entendíamos”, afirma Galvão.

