Com base em mais de 24 mil respostas e relatos de assediadores confessos, um novo levantamento demonstra que a violência no ambiente de trabalho é sustentada por comportamentos tolerados na rotina. Organizações focam os esforços em canais de denúncia, mas fecham os olhos para o abuso de poder, a percepção de escassez e a racionalização de atitudes abusivas, permitindo que a cultura do assédio avance antes de qualquer registro formal.
A prisão do empresário Ivo Kos, ocorrida em São Paulo após acusações de agressão à própria mulher, reacende o alerta sobre a escalada da violência. O episódio coincide com o Agosto Lilás, campanha focada na conscientização pelo fim da violência contra a mulher, e pressiona as estruturas corporativas a reverem a forma como lidam com condutas tóxicas nas equipes.
Toda empresa quer saber como agir quando uma denúncia acontece. A pergunta mais importante deveria ser outra: quais sinais estamos ignorando antes que ela aconteça?
Um levantamento da Organização Internacional do Trabalho (OIT), feito em conjunto com a Gallup e a Lloyd’s Register Foundation, indica que 23,2% das mulheres inseridas no mercado de trabalho global relatam ter sofrido violência física, psicológica ou sexual. Diante desta realidade, especialistas cobram um olhar mais atento à fase pré-denúncia.

O silêncio que precede o abuso
A pesquisa “Triângulo do Assédio e a Roda da Mudança Comportamental”, desenvolvida pela S2 Consultoria, atesta que o assédio sexual ou psicológico raramente tem início em um evento isolado. A psicóloga e sócia da consultoria, Alessandra Costa, explica que o problema se manifesta, inicialmente, por meio de alterações sutis nas dinâmicas de poder e pelo silenciamento das equipes.
O estudo revela que 40% dos colaboradores apresentam uma resiliência considerada moderada diante do assédio sexual. Esse índice sinaliza uma alta propensão à omissão. Profissionais evitam expor abusos por medo de retaliação, vergonha ou mesmo pela banalização de condutas hostis rotineiras, frequentemente disfarçadas de brincadeiras.
Vulnerabilidade no nível operacional
Os dados também indicam que a base operacional das empresas concentra a maior taxa de vulnerabilidade. A união de hierarquias engessadas e a falta de autonomia criam barreiras que dificultam ainda mais a formalização das queixas. Mecanismos de racionalização ajudam a perpetuar os abusos: a pressão excessiva por resultados, a falta de recursos ou interpretações distorcidas de relações interpessoais são utilizadas como narrativas para reduzir a gravidade das atitudes.
Na visão de Alessandra, as lideranças necessitam desenvolver habilidades de observação muito maiores do que o habitual. A ausência de questionamento frente a decisões arbitrárias, a aceitação de humilhações públicas ou a substituição do diálogo pelo medo são os verdadeiros indicadores de risco.
Estratégias para mudança de cultura
Para combater o avanço dessas práticas, o relatório sugere o abandono de medidas estritamente reativas. É necessário implementar um diagnóstico comportamental profundo e revisar o sistema de incentivos das companhias. As recomendações passam por promover espaços seguros onde o diálogo ocorra de forma clara e capacitar gestores para reconhecer fatores de risco antes de se tornarem situações de violência extremas.
Construir uma prevenção efetiva exige transcender o cumprimento burocrático de treinamentos, garantindo que o abuso de poder seja identificado com rapidez e tratado com o peso necessário pelas altas instâncias organizacionais.
Serviço
- Pesquisa e Desenvolvimento: S2 Consultoria
- Áreas de Atuação: Ciência comportamental aplicada, prevenção, restabelecimento de ambientes íntegros e educação corporativa
- Portfólio de Atendimento: Embraer, CSN, Vale, Localiza, Gol, entre outras corporações
- Mais informações: https://s2consultoria.com.br
