Internações por infarto em menores de 39 anos cresceram 150% em 24 anos no Brasil. Cannabis aumenta em 29% o risco de ataque cardíaco, aponta pesquisa.
O perfil do paciente cardíaco no Brasil está mudando de forma acelerada. Os prontos-socorros agora recebem um público que, até pouco tempo atrás, era considerado fora da zona de risco. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) divulgados em 2025 revelam que as internações por infarto em pessoas com menos de 39 anos mais que dobraram nos últimos 15 anos, sinalizando uma crise de saúde cardiovascular precoce no país.
De acordo com o Ministério da Saúde, o aumento nas hospitalizações por infarto em indivíduos abaixo dos 40 anos atingiu a marca de 150% entre 2000 e 2024. O índice, que antes era de dois casos a cada 100 mil habitantes, saltou para cinco, evidenciando que a juventude não é garantia de bem-estar cardiovascular.
Um novo perfil de paciente cardíaco
Somente entre 2022 e 2024, foram contabilizados mais de 234 mil atendimentos por infarto nessa faixa etária. O avanço é especialmente significativo entre pessoas de 35 a 39 anos, grupo em que os episódios aumentaram cerca de 80%. Mesmo entre indivíduos de 25 a 29 anos, os registros vêm crescendo gradualmente, segundo os dados ministeriais.
A médica cardiologista e professora da pós-graduação da Afya Educação Médica Belo Horizonte, Dra. Déborah Prado, comenta que, embora haja uma tendência de redução dos casos entre pessoas acima de 40 anos, um movimento diferente tem sido observado entre adultos jovens.
Este fenômeno pode estar relacionado ao crescimento de fatores de risco importantes para doenças cardiovasculares, como hipertensão, obesidade, dislipidemias e distúrbios do sono. Outro ponto que chama atenção é o uso de substâncias que comprovadamente elevam o risco cardiovascular. Entre elas estão os esteroides anabolizantes utilizados de forma indiscriminada, além de drogas voltadas para melhora de performance, como eritropoetina e GH, e diferentes tipos de estimulantes. Também merece destaque o aumento dos níveis de ansiedade e estresse, condições que já têm associação comprovada com maior risco de desenvolvimento de doenças cardiovasculares.
Dra. Déborah Prado, cardiologista e professora da pós-graduação da Afya Educação Médica Belo Horizonte
Sinais que vão além da dor no peito
A cardiologista reforça que esses dados evidenciam a importância de estar atento aos sinais do corpo, mesmo entre os mais jovens. O infarto ocorre quando há redução do fluxo de sangue para o músculo do coração, geralmente causada pela aterosclerose, doença que afeta as artérias coronárias. Os sintomas podem ser variados e, muitas vezes, confundidos com outras condições.
Segundo a especialista, os sinais de alerta incluem:
- Dor em aperto no peito, que pode irradiar para braços, costas ou pescoço
- Cansaço desproporcional ao esforço realizado
- Intolerância ao esforço físico
- Palpitações e sensação de desmaio
- Queimação no abdômen superior
Cannabis ligada a riscos cardiovasculares graves
Outro fator que vem preocupando pesquisadores é o impacto do consumo de drogas recreativas sobre a saúde do coração. Um estudo publicado na revista científica Heart em 2025, que analisou dados médicos de cerca de 200 milhões de pessoas entre 19 e 59 anos, encontrou associação significativa entre o uso de cannabis e o aumento do risco de eventos cardiovasculares graves.
Os números são expressivos: usuários de maconha têm 29% mais chances de sofrer um infarto e 20% mais probabilidade de ter um AVC. Além disso, a chance de morte por problemas cardíacos chega a ser duas vezes maior em comparação a não usuários.
A Dra. Déborah Prado explica os mecanismos por trás desse risco:
De forma direta, as substâncias podem gerar aumento leve da frequência cardíaca e levar a um aumento de inflamação arterial. Alterando o balanço entre os sistemas regulatórios, elevando o tônus simpático, onde há maior liberação de substâncias que geram constrição das artérias.
Dra. Déborah Prado, cardiologista e professora da pós-graduação da Afya Educação Médica Belo Horizonte
Serviço
- Especialista: Dra. Déborah Prado, cardiologista e professora da pós-graduação da Afya Educação Médica Belo Horizonte
- Estudo: publicado na revista Heart, 2025
- Dados: Ministério da Saúde / Sistema Único de Saúde (SUS), divulgados em 2025
- Referência: internações por infarto em menores de 39 anos — aumento de 150% entre 2000 e 2024

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