A substituição do exame Papanicolau pelo teste molecular no SUS impõe o desafio logístico de estruturar laboratórios em todo o país para processar milhões de análises sem gerar filas.
O rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil passa por uma transformação técnica profunda com a incorporação do teste molecular para detecção de HPV oncogênico no SUS, com meta de cobertura nacional até o fim de 2026. A migração substitui o método citopatológico tradicional por um modelo que detecta o DNA do vírus antes do aparecimento de alterações celulares, ampliando o intervalo de testagem para cinco anos em casos com laudo negativo.
Quando pensamos em rastreamento em larga escala, não basta perguntar qual equipamento consegue processar mais amostras. É preciso saber quantos laboratórios conseguem instalar e operar aquela tecnologia.
A nova estratégia responde ao impacto da doença, apontada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) como a terceira mais incidente entre as mulheres brasileiras, com projeção de 19.310 novos casos anuais no triênio 2026-2028. Contudo, o aumento do volume de coletas esbarra na capacidade física e operacional das unidades diagnósticas, que precisam lidar com espaço reduzido e processos manuais demorados.

Mais diagnósticos por metro quadrado
Para contornar as limitações de área útil, uma tecnologia desenvolvida pela Loccus propõe alta densidade de processamento. A estação automatizada Amplio Station 9600 foi projetada para ocupar 1,44 m² e entregar até 2 mil amostras em 24 horas contínuas de operação, processando 192 amostras por ciclo e cerca de 960 por turno.
Frente a equipamentos tradicionais do mercado que demandam cerca de 3,77 m² para entregar 1.440 testes diários, a solução brasileira opera com um rendimento 39% superior em 38% da área. A relação de produtividade alcança cerca de 1.390 amostras por metro quadrado, ante 380 dos sistemas convencionais de alto volume, viabilizando a instalação em instalações de portes variados.
O fim das etapas manuais de preparação
Além da compactação, a automatização atua sobre o fluxo pré-analítico. Em rotinas de mil amostras com tubos de citologia líquida, a homogeneização e transferência individual para frascos primários específicos costuma exigir de cinco a oito horas de dedicação contínua de profissionais em cabines de segurança biológica.
Ao realizar o processamento direto a partir do frasco original de coleta, o sistema integra extração de material genético, montagem das reações, amplificação por PCR em Tempo Real e descarte de resíduos. A etapa analítica emprega insumos para 14 genótipos oncogênicos de alto risco ou genotipagem estendida com reagentes liofilizados para 23 tipos de HPV, reduzindo a manipulação biológica direta.
Desigualdades regionais e descentralização
A descentralização técnica torna-se imperativa diante do mapa epidemiológico nacional. Os registros do INCA apontam o tumor de colo de útero como a segunda neoplasia mais frequente entre mulheres nas regiões Norte e Nordeste, enquanto ocupa a terceira posição no Centro-Oeste e no Sudeste.
Superar disparidades de cobertura exige que unidades de diagnóstico regionais tenham estrutura para realizar testes avançados sem depender exclusivamente de grandes complexos centrais. A viabilidade do novo protocolo nacional dependerá de manter a rastreabilidade e a velocidade de resposta diagnóstica atreladas à realidade física dos laboratórios da rede pública.
