A morte recente de uma paciente após um procedimento estético com preenchimento glúteo trouxe o PMMA de volta ao centro das discussões no país. O episódio acendeu um alerta entre especialistas e reforçou dúvidas que ainda persistem sobre a segurança da substância, especialmente quando utilizada fora das indicações médicas autorizadas.
Apesar de já ser conhecido há anos, o polimetilmetacrilato segue cercado por controvérsias. Isso acontece porque, embora tenha uso permitido em situações muito específicas, sua aplicação estética é considerada irregular pela Anvisa. O problema se agrava quando grandes volumes são utilizados, aumentando significativamente o risco de complicações graves.
quando grandes volumes são utilizados, aumentando significativamente o risco de complicações graves.O que é o PMMA e por que ele preocupa
O PMMA (polimetilmetacrilato) é um polímero sintético que pode ser utilizado em contextos médicos restritos, como na correção de lipoatrofia em pacientes que fazem uso de medicamentos antirretrovirais. Fora dessas situações específicas, seu uso não é autorizado.
Segundo o cirurgião plástico Dr. Marcio Harada, o principal problema surge quando a substância é empregada com finalidade estética. “O PMMA é autorizado para situações médicas específicas e de uso restrito por médicos. Quando isso é extrapolado para fins estéticos, está em desacordo com a regulamentação”, explica.
Diferente de outros preenchedores amplamente utilizados, o PMMA não é absorvido pelo organismo. Isso significa que qualquer efeito — positivo ou negativo — tende a ser permanente, o que eleva o nível de responsabilidade na decisão pelo procedimento.
Mitos comuns sobre o uso do PMMA
Um dos equívocos mais frequentes é acreditar que o PMMA funciona da mesma forma que preenchedores convencionais. Na prática, a principal diferença está justamente na permanência do material no corpo.
“O grande problema do PMMA é que ele é um preenchimento permanente. Depois que o paciente coloca, ele permanece no organismo e, na maioria dos casos, só pode ser retirado por meio de cirurgia”, afirma o Dr. Marcio Harada.
Outro mito recorrente é a ideia de que eventuais complicações podem ser resolvidas apenas com medicamentos. Embora antibióticos e corticoides possam controlar sintomas em alguns casos, eles não eliminam necessariamente o problema.
“O tratamento clínico pode controlar processos inflamatórios e infecciosos, mas, em muitos casos, especialmente quando há infecções recorrentes, o tratamento cirúrgico acaba sendo necessário”, destaca o especialista.
Também é equivocado acreditar que os riscos estão limitados a procedimentos realizados por pessoas sem formação médica. Mesmo quando aplicado por profissionais qualificados, o PMMA continua sendo uma substância de risco, especialmente por seu caráter permanente.
Outro ponto importante envolve a quantidade aplicada. Existe a falsa percepção de que volumes maiores apenas ampliam o resultado estético. Na realidade, o aumento da quantidade está diretamente ligado ao crescimento dos riscos.
Verdades que precisam ser levadas a sério
Entre os aspectos mais preocupantes está o potencial do PMMA de causar complicações graves. De acordo com o Dr. Marcio Harada, há risco real de eventos como embolia pulmonar, necrose, infecções e reações inflamatórias intensas.
Se partículas atingirem um vaso sanguíneo, elas podem migrar pela circulação e provocar complicações graves, como o tromboembolismo pulmonar.
Além disso, o produto pode desencadear reações tardias. Isso significa que problemas podem surgir anos após a aplicação, dificultando ainda mais o diagnóstico e o tratamento.
“O organismo pode reagir ao PMMA como um corpo estranho, formando nódulos, inflamações e até infecções tardias. Existem pacientes que convivem com complicações por muitos anos”, explica o médico.
A remoção também representa um desafio significativo. Como o material se integra aos tecidos, a retirada costuma ser complexa e nem sempre completa.
“Remover o PMMA é muito difícil. Na maior parte das situações, a retirada só é possível por cirurgia e nem sempre é possível remover todo o material”, afirma o especialista.
Os riscos aumentam com grandes volumes
O uso de grandes quantidades de PMMA é um dos fatores que mais preocupam os especialistas. Isso porque o volume aplicado pode potencializar não apenas complicações locais, mas também efeitos sistêmicos.
Entre os quadros mais graves está a hipercalcemia, que pode evoluir para insuficiência renal. Esse tipo de complicação reforça o caráter imprevisível da substância quando utilizada fora das recomendações médicas.
O alerta se torna ainda mais relevante diante da popularização de procedimentos estéticos e da busca por resultados rápidos e duradouros, muitas vezes sem a devida compreensão dos riscos envolvidos.
Informação como ferramenta de segurança
Para o Dr. Marcio Harada, a informação é um dos principais aliados na prevenção de complicações. Pacientes bem orientados tendem a tomar decisões mais conscientes e seguras.
“A regra de ouro é que o paciente seja informado sobre todos os riscos e benefícios. Como se trata de um produto permanente, a decisão precisa ser tomada com muita responsabilidade e consciência”, finaliza.
O debate em torno do PMMA reforça a importância da regulamentação, da ética médica e da busca por procedimentos seguros. Em um cenário onde a estética ganha cada vez mais espaço, entender limites e riscos deixa de ser opcional — e passa a ser essencial.

