Niura Bellavinha transforma o Paço Imperial com pigmentos, poeira de meteoritos e tinta vermelha escorrendo pela fachada histórica. Até 7 de junho, entrada franca.
Antes mesmo de entrar, o visitante já encontra a exposição. Nas janelas da fachada do Paço Imperial, telas brancas deixam escorrer tinta vermelha em direção à Praça XV. A intervenção tem nome: Chorare Pitangas, expressão tupi-guarani que significa “chorar lágrimas de sangue”. É o cartão de visitas de Toró, a nova individual de Niura Bellavinha, inaugurada em 28 de março de 2026 e em cartaz até 7 de junho.
A escolha da palavra tupi para nomear a mostra não é aleatória. Toró remete à chuva que não apenas cai, mas irrompe, transborda e transforma. Esse sentido de força em movimento atravessa cada decisão da artista, desde os materiais escolhidos até a forma como o espaço foi ocupado. A exposição integra as celebrações dos 40 anos do Paço Imperial como centro cultural e conta com curadoria de Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco.
Um edifício como corpo vivo
A relação entre a obra e o lugar onde ela se instala é central em Toró. O Paço Imperial não foi tratado como cenário neutro. No final do século XVIII, aquelas paredes abrigaram decisões que definiram a história colonial brasileira, incluindo a condenação de Tiradentes. Bellavinha não narra esse passado diretamente, mas o ativa por meio da matéria e do gesto.
Toró nos interessa como um estado, não como uma imagem. É uma noção de pressão e intensidade que atravessa a obra da Niura e encontra, no Paço Imperial, um campo de ressonância histórica e simbólica.
A exposição ocupa o terreiro e o terreirinho do edifício, espaços historicamente ligados às áreas de serviço, circulação e abastecimento. A curadoria enxergou nessa escolha uma camada extra de sentido: são ambientes que carregam a memória do trabalho, do fluxo cotidiano e, inevitavelmente, da exploração. Pinturas, esculturas e obras instalativas se distribuem por esse percurso, criando ritmos de escala e intensidade.
Matéria, memória e meteoritos
A dimensão material da obra de Niura Bellavinha é o que mais impressiona de perto. A artista trabalha com pigmentos naturais, terras, rejeitos minerais e poeira de meteoritos. Em algumas esculturas, pedras são atravessadas por linhas de seda que pertenciam à sua mãe, criando uma costura inesperada entre memória íntima e território. As fitas evocam ao mesmo tempo veios de minério e veias do corpo, aproximando mineração e anatomia, exploração da terra e ferida humana.
A própria artista descreve seu processo como algo próximo da música serial e da montagem cinematográfica. “Da música vem a ideia de uma estrutura em variação constante; do cinema, o princípio da montagem, feito de edições sucessivas até que algo se estabilize; da fotografia, o corte, a luz e a relação sutil entre as cores. Trabalho a partir da instabilidade, deixando que erros e aparições conduzam o processo, e gosto de operar com os restos, com as camadas anteriores. Minha pintura é leve como a poeira. Busco um ponto de equilíbrio por meio de uma sucessão de situações e regiões instáveis”, afirma Bellavinha.
Na prática, isso significa escorrimentos, velaturas, pulverizações e infiltrações que fazem da cor um elemento em permanente deslocamento. Vermelhos intensos convivem com verdes e azuis de aparência aquosa, ampliando o repertório cromático da artista e embaralhando associações entre sangue, água, minério e paisagem.
A obra que dá nome à mostra
Entre os trabalhos expostos, o tríptico Toró (2015-2016) concentra muito do que estrutura a pesquisa da artista. A obra reúne moldavita, azurita, spirulina e zircão sobre tela, compondo uma superfície de caráter aquoso e atmosférico. Em tons de verde e azul, dialoga com referências da história da pintura que atravessam a trajetória de Bellavinha: William Turner, Paul Cézanne e Alberto da Veiga Guignard.
A expografia foi concebida como um percurso progressivo. Em alguns momentos, o público é convidado a atravessar fisicamente as obras, penetrando planos pictóricos e percebendo variações de luz, transparência e densidade material. A experiência exige tempo e atenção. Não há atalhos para o que Bellavinha propõe.
Uma itinerância que se reinventa
Toró não é uma retrospectiva, apesar de marcar os 35 anos de carreira da artista. A mostra enfatiza o presente da produção de Bellavinha e sua capacidade de se reconfigurar a partir do encontro com cada espaço. O projeto começou a circular em 2024/2025 com a exposição apresentada no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto, e chega ao Rio em configuração inédita.
Estão previstas ainda apresentações em São Paulo, Porto Alegre e Belém. Ao final do percurso, será lançado o livro Niura, publicação que consolida o programa de itinerância reunindo imagens e textos sobre os atravessamentos entre obra, espaço e tempo ao longo das diferentes exposições.
Uma trajetória de décadas
Nascida em Belo Horizonte em 1962, Niura Bellavinha é bacharel em Artes pela Escola Guignard, com especialização em pintura, escultura e litografia. Estudou com Amílcar de Castro desde os 14 anos e, aos 19, foi convidada pelo próprio Amílcar para integrar um núcleo avançado de artes. Em paralelo, participou da Casa Litográfica a convite de Lótus Lobo.
Ao longo da carreira, acumulou participações em bienais como a 1ª e 4ª Biwako Biennale no Japão, a 1ª, 5ª e 10ª Bienal do Mercosul em Porto Alegre, a Bienal Internacional de São Paulo (1985 e 1994) e a Bienal de Cuenca, no Equador (1995). Recebeu o Grande Prêmio no Salão Nacional de Artes de 1990 (IBAC/FUNARTE/MAP). Em 2016, lançou o livro Niura Bellavinha, pela Editora Cobogó, com curadoria do crítico Paulo Herkenhoff.
Serviço
- Exposição: Toró, de Niura Bellavinha
- Curadoria: Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco
- Abertura: 28 de março de 2026
- Encerramento: 7 de junho de 2026
- Local: Centro Cultural do Patrimônio Paço Imperial — Praça XV de Novembro, 48, Centro, Rio de Janeiro (RJ)
- Horários: Terça a domingo e feriados, das 12h às 18h
- Entrada: Franca | Classificação livre
- Site: https://amigosdopacoimperial.org.br
- Instagram: @pacoimperial_rj

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