Na residência modernista onde cresceu, Camilla Barretto reuniu arquitetas e profissionais da hotelaria para discutir como espaço, memória e identidade definem o luxo hoje.
Havia algo de incomum na manhã de 29 de abril no Pacaembu, em São Paulo. A Casa Joaquim Barretto — residência erguida entre 1978 e 1981 e reconhecida como um dos exemplares mais singulares do modernismo paulistano — abriu suas portas não para uma exposição ou um evento de moda, mas para um debate institucional sobre o futuro da hospitalidade brasileira. Quem recebeu os convidados foi Maria Luisa Barretto, proprietária da casa e viúva do arquiteto Joaquim Barretto (1940–1985). Quem conduziu a conversa foi sua filha, Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association.
O encontro, batizado de Entre Espaços e Memórias: Arquitetura, Design e Hospitalidade, reuniu cerca de 40 profissionais da imprensa especializada, da arquitetura, do design e da hotelaria em torno de uma roda de conversa que propôs reflexões sobre como os espaços — especialmente na hotelaria — podem estimular afetos, enredos pessoais e identidade, sem abrir mão de funcionalidade e eficiência operacional.
Luxo que não cabe mais na ideia de opulência
Na abertura do encontro, Camilla foi direta ao situar o evento dentro de uma transformação conceitual mais ampla que a própria BLTA tem protagonizado ao longo de seus 18 anos de existência.
“Quando falamos em luxo hoje, já não estamos tratando mais da ideia pequena de opulência. Estamos falando de experiências, de memórias e conexões verdadeiras. A BLTA nasceu 18 anos atrás, para promover nosso turismo de alto padrão a partir da autenticidade de nossa brasilidade e das riquezas naturais – que conhecemos profundamente, mas que o mundo ainda está descobrindo. Reunir pessoas tão qualificadas nesta casa que, para além da importância arquitetônica, carrega tantas histórias pessoais é mostrar que hospitalidade vai além da hospedagem: ela está na capacidade de criar experiências que permanecem.” — Camilla Barretto, CEO da BLTA
Com 67 hotéis, resorts e pousadas e oito operadoras de viagens associadas espalhados pelo Brasil, a BLTA consolidou-se como entidade estratégica para a valorização da hospitalidade brasileira em sua dimensão mais ampla — não apenas como excelência em serviço, mas como expressão de cultura, território, repertório estético e identidade.
Território como matéria-prima do projeto
A arquiteta Janice Miguel, responsável pela curadoria e pelo projeto de interiores do Barracuda Hotel & Villas — empreendimento associado da BLTA criado por investidores brasileiros e suecos em Itacaré, na Bahia —, trouxe ao debate um exemplo concreto de como o pertencimento territorial pode se tornar o principal ativo de um hotel de luxo.
“O entendimento do território, a compreensão de onde você está inserido, é muito relevante para o desenvolvimento de um projeto como o do Barracuda. Estar na Bahia, em Itacaré, exige uma integração profunda com o local, com o que é nativo, com os materiais brasileiros, com o clima e com a paisagem. O grande diferencial desse projeto é que, nele, não havia ideias engessadas, mas uma abertura real para criarmos um novo lugar com identidade própria, conceito e profundamente enraizado no território.” — Janice Miguel, arquiteta
Ao longo do encontro, ficou evidente que nomes como Isay Weinfeld, Ruy Ohtake, Studio MK27, Bernardes Arquitetura, Jacobsen, Sig Bergamin, Patricia Anastassiadis, David Bastos e Wilbert Das ajudam a consolidar arquitetura, design e paisagismo como ferramentas de diferenciação sensorial — atributos cada vez mais presentes nos projetos ligados ao universo da BLTA.
Memória como valor permanente
Para Ana Almeida Prado Sawaia, conselheira do Instituto Virginia e Vilanova Artigas e diretora adjunta de Políticas Culturais e Difusão do IAB-SP, o movimento responde a uma transformação profunda na forma como o valor da arquitetura é percebido globalmente.
“O verdadeiro valor está em poder preservar a memória – memória da nossa cidade, da nossa arquitetura, de nossa cultura – e ver renovações acontecendo sem que a gente perca essa identidade. É preciso olhar para dentro do nosso país, reconhecer o que já foi feito de extraordinário e tornar esses avanços permanentes para as pessoas.” — Ana Almeida Prado Sawaia, arquiteta e conselheira do Instituto Virginia e Vilanova Artigas
Mariana Simas, diretora executiva do Studio MK27 — o renomado escritório de Marcio Kogan, onde atua desde 2008 — completou o raciocínio ao apontar a espontaneidade como traço distintivo da contribuição brasileira ao design hoteleiro internacional.
“Desenhar hotéis tem muito a ver com o cruzamento entre vida e espaço, entre emoção e construção. Quando viajamos, estamos sempre mais abertos e mais sensíveis, e a arquitetura e o design são partes profundas dessa experiência. Como brasileiros, temos muito a contribuir, sobretudo por nossa espontaneidade e a forma mais viva e menos rígida que temos no gesto de acolher.” — Mariana Simas, diretora executiva do Studio MK27
A casa-manifesto de Barretto e Segnini
Projetada e construída entre 1978 e 1981 por Joaquim Barretto e Francisco Segnini, a Casa Joaquim Barretto sintetiza uma visão de arquitetura que permanece radicalmente atual. Implantada em um terreno com declive acentuado de 45 graus no Pacaembu, a residência tornou-se referência por sua integração com a topografia, pela liberdade formal e pela maneira como traduz arquitetura moderna em experiência cotidiana — cerca de 420 m² de área construída transformados em espaço pulsante de convivência. Destaque em matérias das revistas Domus e Projeto nos anos 1980, a casa é reconhecida como um exemplar da potência experimental da chamada arquitetura brasileira tardo-moderna.
Francisco Segnini, coautor do projeto e sócio de Joaquim entre 1968 e o início dos anos 1980, prestigiou o encontro e destacou o que, para ele, define a longevidade da obra.
“A arquitetura não é feita para o arquiteto. Ela é feita para as pessoas. Essa casa nasceu de uma relação muito profunda entre projeto, família e vida real. Talvez por isso ela continue tão atual: porque não foi pensada como objeto, mas como um espaço verdadeiro de existência. A boa arquitetura surge quando há escuta, troca e entendimento real de quem vai viver aquele e naquele lugar.” — Francisco Segnini, arquiteto coautor da Casa Joaquim Barretto
A decisão de abrir a casa para o evento ganha ainda mais significado quando se conhece a história por trás do projeto. Foi Maria Luisa Barretto quem, em 1977, desafiou o marido e Segnini a superarem uma proposta brutalista inicial — pedindo algo mais ousado. O resultado foi a casa que hoje completa 45 anos e que ela descreveu com precisão e afeto.
“Eu nunca vi essa casa apenas como arquitetura. Para mim, ela sempre foi vida: é a história da minha família, dos meus filhos, dos meus netos, das memórias que continuam acontecendo aqui. O espaço vazio não significa nada; ele só ganha sentido quando é vivido. Abrir essa casa é reafirmar que ela continua viva. Essa casa não é um monumento congelado, é um organismo de memória, de afeto e de transformação.” — Maria Luisa Barretto, proprietária da Casa Joaquim Barretto
Ao transformar a Casa Joaquim Barretto em cenário para discutir as conexões entre arquitetura, design e hospitalidade, a BLTA reforçou a mensagem central de que, no turismo de luxo contemporâneo, experiências memoráveis nascem da convergência entre espaço, identidade e pertencimento. Mais do que promover destinos, a associação evidencia que o futuro da hospitalidade brasileira está na capacidade de transformar patrimônio, autoria e brasilidade em experiências com significado duradouro.
Serviço
- Evento: Entre Espaços e Memórias: Arquitetura, Design e Hospitalidade
- Realização: Brazilian Luxury Travel Association (BLTA)
- Data: 29 de abril de 2025
- Local: Casa Joaquim Barretto — Pacaembu, São Paulo (SP)
- Site: www.blta.com.br



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