Ditadura, Césio-137 e feminicídio: “Expressões” reúne mais de 100 obras de Siron Franco na Vila Cultural Cora Coralina até 6 de julho, com entrada gratuita.
Há obras que incomodam antes mesmo de serem compreendidas. As de Siron Franco funcionam assim — e é justamente essa tensão que a exposição Expressões coloca em cartaz na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia. Com mais de 100 trabalhos produzidos entre as décadas de 1960 e 1980, a mostra traça um retrato visceral do Brasil por meio do olhar de um dos artistas mais relevantes da arte contemporânea nacional.
O recorte temporal não é arbitrário. Aquele período foi decisivo na formação estética e política de Siron, quando ele começava a ganhar reconhecimento nos principais salões e bienais do país enquanto a sociedade brasileira vivia sob repressão, medo e silêncio forçado.
Uma biópsia do tecido social brasileiro
A força expressionista das obras não deixa dúvidas sobre a intenção do artista. Temas como violência, desigualdade e repressão surgem traduzidos em imagens que perturbam e permanecem. O percurso expositivo inclui um ambiente imersivo dedicado ao acidente com o Césio-137, tragédia que marcou Goiânia em 1987 e rendeu algumas das obras mais conhecidas de Siron. A reconstituição remete à cápsula do material radiológico, criando uma experiência que vai além da contemplação.
Outro núcleo de impacto é a instalação sobre feminicídio, composta por dezenas de Madonas pintadas nos anos 1970 e 1980. A sobreposição entre religiosidade e violência de gênero resulta em um dos momentos mais potentes da exposição — e também dos mais necessários.
Siron Franco não pinta apenas quadros — ele realiza verdadeiras biópsias do tecido social brasileiro. Expressões reúne o trauma da ditadura, o luto radioativo do Césio 137, as tensões do sincretismo religioso e a persistência da desigualdade contemporânea.
Leopoldo Veiga Jardim, idealizador da mostra
Arte como ferramenta de leitura do mundo
A curadoria aposta na arte como instrumento de intervenção e reflexão. Além das obras de Siron, a mostra inclui a instalação Fome, do artista e curador Aguinaldo Coelho, ampliando o diálogo sobre resistência e identidade cultural. O conjunto articula questões universais — fome, desigualdade, silenciamento — sem perder o enraizamento na história goiana e brasileira.
Para o próprio Siron, a exposição tem uma dimensão formativa clara. “A ideia é estimular reflexões sobre acontecimentos históricos que ainda reverberam na sociedade. É uma oportunidade de aproximar o público de obras que dialogam com a cultura, a identidade e a história goiana e brasileira”, afirma o artista.
Trajetória de um artista que nunca recuou
Nascido na cidade de Goiás em 1947, Siron Franco é pintor, escultor, desenhista, gravador, ilustrador e diretor de arte. Ao longo da carreira, acumulou prêmios na I Bienal da Bahia (1968), no I Salão Global da Primavera (1973) e em duas edições consecutivas da Bienal Internacional de São Paulo — a XII (1974) e a XIII (1975). Também foi reconhecido nos principais prêmios do Salão Nacional de Artes Plásticas, no Rio de Janeiro.
A exposição é realizada com recursos do Programa Goyazes, do Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, com apoio da Óticas Vida.
Serviço
- Exposição: Expressões — Siron Franco
- Período: até 6 de julho de 2026
- Visitação: segunda a domingo, das 9h às 17h
- Local: Vila Cultural Cora Coralina — Rua 23 com Rua 3, Setor Central, Goiânia (GO)
- Entrada gratuita

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