O MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand inaugura, em 3 de julho, a mostra Sala de Vídeo: Regina José Galindo, trazendo ao Brasil uma obra inédita que confronta diretamente as violências enfrentadas por populações migrantes e os efeitos profundos da deportação.
No centro da exposição está o registro da performance Deportada (Todo lo que perdí) [Tudo o que perdi] (2024), em que a artista guatemalteca transforma o próprio corpo em instrumento de denúncia. Ao final da programação, o público também poderá acompanhar uma nova ação ao vivo, ampliando o debate para o contexto brasileiro.
Uma performance sobre perda e apagamento
Com curadoria de Bruna Fernanda, a sala de vídeo apresenta dois canais exibidos simultaneamente, construindo uma narrativa que alterna gesto físico e testemunho direto.
Na tela principal, Regina José Galindo veste todas as roupas de Cristina Cazales Pacheco, mulher deportada de Nova York para o México, enquanto seu marido e filhos permanecem nos Estados Unidos. Durante a performance, o público é convidado a retirar, peça por peça, cada camada de roupa da artista, até que ela deixe o espaço.
Em paralelo, uma segunda tela exibe o depoimento da própria Cristina, que narra sua trajetória, a construção de uma vida em outro país e a ruptura provocada pela deportação. O relato mistura intimidade e política, evidenciando perdas que vão além do material.
A obra transforma objetos cotidianos — roupas, móveis, fotografias — em vestígios de uma existência interrompida, expondo como estruturas sociais naturalizam o apagamento de histórias individuais.
O corpo como denúncia coletiva
Ao permitir que desconhecidos retirem suas roupas, Galindo desloca a performance para um território coletivo. O gesto deixa de ser apenas simbólico e passa a implicar o público como parte de um sistema que perpetua a violência.
A ação dialoga com um tema recorrente na trajetória da artista: a migração de povos centro-americanos para os Estados Unidos e o endurecimento das políticas de repressão contra imigrantes.
Esse tipo de abordagem marca mais de duas décadas de produção da artista, que investiga abusos de direitos humanos, violência de gênero e opressões estruturais. Trabalhos como ¿Quién puede borrar las huellas? (2003) e Presencia (2017) também utilizam o corpo como suporte para tornar visíveis experiências frequentemente silenciadas.
Na prática de Galindo, a roupa aparece como elemento recorrente, funcionando como vestígio de um corpo ausente e como evidência material de vidas reduzidas a números ou estatísticas.
Contexto latino-americano no MASP
A exposição integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias latino-americanas, eixo curatorial que reúne artistas e projetos voltados às experiências sociais, políticas e culturais da região.
Ao longo do ano, o museu apresenta uma série de mostras que ampliam esse recorte, incluindo nomes como Carolina Caycedo, Colectivo Acciones de Arte, Claudia Alarcón e Silät, Damián Ortega, Jesús Soto, entre outros, além de projetos audiovisuais de artistas contemporâneos.
Nesse contexto, a presença de Galindo reforça o papel da performance como linguagem crítica e ferramenta de reflexão sobre temas urgentes que atravessam fronteiras.
Performance inédita no Vão Livre
Como desdobramento da exposição, a artista apresenta Duelo, performance inédita marcada para 22 de agosto de 2026, no Vão Livre do MASP.
A ação parte de uma pesquisa sobre violência policial no Brasil e estabelece diálogo direto com os temas abordados na sala de vídeo. Durante cerca de uma hora, Galindo permanecerá imóvel, vestindo as roupas de luto de uma mãe que perdeu um filho assassinado pela polícia, enquanto o depoimento dessa mulher é transmitido ao público.
A proposta amplia o debate para o contexto brasileiro, conectando diferentes formas de violência estrutural por meio de uma experiência performática direta e silenciosa.
A trajetória da artista
Nascida em Cidade da Guatemala, em 1974, Regina José Galindo construiu sua carreira a partir da cena artística dos anos 1990, em um período de reabertura política após décadas de ditadura militar no país.
Autodidata, a artista desenvolveu uma linguagem marcada pelo uso do próprio corpo como território de tensão e resistência. Sua obra é atravessada pelo contexto da guerra civil guatemalteca, que resultou no desaparecimento de milhares de pessoas.
Em 2005, recebeu o Leão de Ouro para Jovens Artistas na Bienal de Veneza. Desde então, seu trabalho passou a integrar coleções e exposições em instituições internacionais. No Brasil, realizou uma individual na Galeria Portas Vilaseca, no Rio de Janeiro, em 2025.
Acessibilidade e realização
As exposições temporárias do MASP contam com recursos de acessibilidade, incluindo entrada gratuita para pessoas com deficiência e acompanhante, visitas em Libras ou descritivas mediante solicitação e conteúdos com audiodescrição e legendagem.
A mostra é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. A programação de Histórias latino-americanas conta com patrocínio do Nubank.
Serviço
- Sala de Vídeo: Regina José Galindo
- 3.7 — 23.8.2026
- Curadoria: Bruna Fernanda, assistente curatorial, MASP
- Edifício Lina Bo Bardi, 2º subsolo
- MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
- Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200
- Telefone: (11) 3149-5959
- Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta e quinta das 10h às 18h (entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas
- Agendamento on-line obrigatório: masp.org.br/ingressos
- Ingressos: R$ 85 (entrada); R$ 42 (meia-entrada)
- Descontos: clientes Nubank Ultravioleta têm 50% de desconto; clientes Nubank têm 25%

