Três anos de pesquisa sobre fé, materialidade e devoção tomam forma em um único espaço pela primeira vez. A artista Heloisa Panuci inaugura a exposição “Imagem e Semelhança” no dia 2 de julho, às 19h, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis, reunindo 16 trabalhos produzidos entre 2022 e 2025 que circularam por mostras coletivas, mas nunca haviam sido vistos juntos assim.
O projeto foi selecionado na Chamada Pública Paulo Gaiad 2026 – 1ª Exposição Individual, edital voltado a artistas que ainda não realizaram uma mostra solo. A entrada é gratuita e a exposição segue em cartaz até 20 de agosto.
O peso do sagrado como método
Nascida em Curitiba e moradora de Florianópolis, Heloisa Panuci construiu sua pesquisa a partir de algo muito íntimo: a criação católica e tudo o que ela deixou como rastro afetivo. A relação entre as imagens santas, os objetos de devoção e a tentativa sempre incompleta de substituir o divino pelo material está no coração da exposição.
“No catolicismo, há essa noção de uma irreconstituição frente ao original, que fica no campo do divino e absoluto. O próprio humano é feito à semelhança moral de Deus, e é uma lógica que atravessa as formas de devoção: como as imagens santas e a materialidade que as constituem tentam, em vão, substituir”, explica a artista.
Trabalho sob a perspectiva do registro de um afeto por conviver com imagens de santos, hábitos de devoção, e como esse entorno afetou profundamente minha relação com imagem e materialidade — por isso o nome ‘Imagem e Semelhança’.
A escolha do título não é acidental. Ele carrega a tensão central de toda a mostra: a distância intransponível entre o original e a cópia, entre o sagrado e sua representação, entre o vivo e o vestígio que sobra depois que a vida passa.
Sudários, peles e objetos do cotidiano
A materialidade escolhida por Heloisa é deliberadamente corporal. Esculturas, gravuras e arte têxtil dividem o espaço da Badesc com referências diretas a carnes, peles e sudários — tecidos que guardam a marca do corpo que não está mais ali. Móveis e objetos do cotidiano também aparecem instrumentalizados, deslocados de sua função original para operar como signos dentro dessa gramática da devoção.
“A tônica entre a constituição das obras é o orgânico, seja matéria, sejam modos de viver, e a tentativa de reconstituição por meio do artifício. Trago sudários, materiais e imagens análogas a carnes e peles, e a instrumentalização de objetos e móveis do cotidiano”, descreve a artista.
Há também uma reflexão sobre a relíquia como conceito — esse objeto que carrega a presença do sagrado por ter tocado ou pertencido a um santo. Para Heloisa, a relíquia vira método: o fazer artístico assume o artifício como uma busca que já nasce sabendo que vai falhar, produzindo apenas vestígios daquilo que um dia existiu de forma plena.
Entre a crítica e o afeto
Heloisa sabe que incorporar simbologias religiosas de forma crítica pode gerar leituras diversas. E assume essa complexidade com naturalidade. Para ela, o trabalho não nasce do desrespeito, mas de uma relação profundamente afetiva com um universo simbólico que moldou seu olhar desde cedo.
“Fico curiosa como a exposição pode ser recebida pois, visto que tive uma criação muito católica, acabo incorporando como simbologia e método em várias obras de formas disruptivas e às vezes até críticas. Da minha parte, não se trataria de algum desrespeito ou algo do tipo”, pondera a artista.
Essa tensão entre pertencimento e distanciamento crítico é, em si, um dos temas mais potentes da mostra. Heloisa não abandonou o catolicismo como tema — ela o atravessou, o examinou por dentro e o trouxe de volta transformado em linguagem visual.
Uma trajetória construída no hibridismo
Bacharel em Artes Visuais pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (PPGAV/UDESC), Heloisa Panuci transita com desenvoltura entre gravura, assemblagem e instalação. Ela se define como artista-acumuladora — alguém que coleta, reorganiza e transforma os signos e materialidades do entorno em instâncias de subjetividade.
Sua obra já circulou por exposições coletivas em cidades como Curitiba, Brasília, São Paulo, Ribeirão Preto, Limeira, Leme e também no exterior, em Lisboa e Chillán. Ainda assim, “Imagem e Semelhança” representa um marco: é a primeira vez que um recorte tão amplo e coeso de sua produção ocupa um espaço inteiramente dedicado a ela.
“É a primeira vez que reúno um volume tão grande da minha produção em um único espaço. O edital para a primeira exposição individual é uma oportunidade muito bacana, pela qual fico muitíssimo grata de ser contemplada”, conclui a artista.
Serviço
- Exposição: Imagem e Semelhança
- Artista: Heloisa Panuci
- Abertura: 2 de julho de 2026, às 19h
- Visitação: até 20 de agosto de 2026, de segunda a sexta, das 13h às 19h
- Local: Fundação Cultural Badesc – Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis/SC
- Entrada: gratuita


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