Uma em cada 1,6 pessoa no planeta convive com algum tipo de doença de pele. O número, que pode parecer exagerado, está confirmado por dados publicados na revista científica The Lancet: entre 4,7 e 4,9 bilhões de pessoas em todo o mundo enfrentam condições dermatológicas, tornando essas enfermidades uma das principais causas globais de incapacidade.
O cenário ganha novo destaque nesta terça-feira, data em que se celebra o Dia Mundial da Saúde da Pele (World Skin Health Day), campanha internacional promovida pela Liga Internacional das Sociedades Dermatológicas (ILDS) e apoiada no Brasil pela Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). A mobilização busca chamar atenção para um problema que, apesar de sua escala bilionária, ainda carece de prioridade nas políticas públicas de saúde.
Um universo de milhares de doenças
Segundo o levantamento publicado pela The Lancet, existem entre 2 mil e 3 mil doenças cutâneas distintas catalogadas atualmente. Elas incluem desde infecções comuns até doenças inflamatórias crônicas, doenças tropicais negligenciadas e diferentes tipos de câncer de pele. A diversidade de condições ajuda a explicar por que o impacto dermatológico é tão disseminado — e por que tantas pessoas convivem, muitas vezes sem saber, com algum tipo de alteração cutânea que merece acompanhamento médico.
O problema vai além do desconforto físico. De acordo com o documento, as doenças de pele afetam diretamente a saúde mental, a produtividade e o bem-estar social dos pacientes. Ainda assim, estima-se que menos da metade da população mundial acometida tenha acesso adequado ao atendimento dermatológico especializado — um dado que evidencia a distância entre a magnitude do problema e a resposta oferecida pelos sistemas de saúde.
Os números demonstram que a saúde da pele precisa ser encarada como uma prioridade em saúde pública. Estamos falando de doenças que afetam bilhões de pessoas e que muitas vezes são negligenciadas. A pele é o maior órgão do corpo humano, sendo, muitas vezes, um importante sinalizador de doenças sistêmicas, infecções, processos inflamatórios e cânceres. Cuidar da saúde da pele é cuidar da saúde como um todo.
A frase é do presidente da SBD, Dr. Carlos Barcaui, que reforça o caráter sistêmico das doenças dermatológicas. Muitas vezes, explica ele, alterações na pele funcionam como um alerta precoce para condições que vão muito além da superfície do corpo.
OMS reconhece prioridade global em 2025
O alerta ganha peso adicional após um marco recente: em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou uma resolução histórica que reconheceu, pela primeira vez, as doenças de pele como uma prioridade global de saúde pública. O documento recomenda a ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento, o fortalecimento da assistência especializada, a educação da população e o combate ao estigma que ainda envolve condições dermatológicas.
Essa mudança de status simboliza um reconhecimento tardio, mas necessário, de que problemas de pele não são apenas questões estéticas. Para especialistas, o próximo desafio é transformar a resolução em políticas concretas que cheguem à ponta do sistema de saúde, especialmente em países como o Brasil, onde o acesso à dermatologia ainda é desigual entre regiões.
Redes sociais ganham espaço no lugar do consultório
No Brasil, o interesse por cuidados com a pele é alto — mas nem sempre acompanhado por orientação médica qualificada. Uma pesquisa do Datafolha mostra que 54% dos brasileiros afirmam buscar informações sobre cuidados com a pele, produtos, procedimentos e profissionais da área.
O problema está na origem dessa busca. Entre os que procuram esse tipo de conteúdo, as redes sociais lideram como principal fonte de informação: 19% recorrem a plataformas digitais e criadores de conteúdo, enquanto outros 9% buscam orientações no YouTube. Em contrapartida, apenas 14% procuram médicos presencialmente, e 13% utilizam sites de busca e páginas médicas como fonte de consulta.
- 54% dos brasileiros buscam informações sobre cuidados com a pele
- 19% recorrem a redes sociais e criadores de conteúdo
- 9% buscam orientações no YouTube
- 14% procuram médicos presencialmente
- 13% utilizam sites de busca e páginas médicas
Um dado específico chama atenção entre os mais jovens. Entre os brasileiros de 16 a 24 anos que apresentam acne — principal motivo de consulta dermatológica no país, segundo o Inquérito Dermatológico da SBD — 70% ainda não procuraram um dermatologista. A informação sinaliza uma lacuna significativa entre o interesse pelo tema e a busca efetiva por avaliação especializada.
Observamos que muitos buscam informações nas redes sociais e experimentam produtos por influência digital, mas deixam de procurar avaliação especializada. A orientação médica continua sendo fundamental para garantir diagnósticos corretos, tratamentos eficazes e segurança para os pacientes.
A observação, novamente do Dr. Carlos Barcaui, resume um dos maiores desafios da dermatologia brasileira atual: como competir com a velocidade e o apelo visual das redes sociais sem abandonar o rigor do diagnóstico clínico.
Motivações mudam com a idade
O estudo também revelou diferenças geracionais interessantes nos motivos que levam os brasileiros a cuidar da pele. Entre os mais jovens, a autoestima aparece como principal fator impulsionador da busca por cuidados dermatológicos. Já nas faixas etárias mais avançadas, a prevenção de doenças passa a ocupar posição de destaque, mostrando como a relação com a própria pele se transforma ao longo da vida.
Projeto Guarita leva dermatologia a comunidades indígenas
Como parte das ações do Dia Mundial da Saúde da Pele, a SBD apoia uma iniciativa que busca promover assistência periódica à população da Terra Indígena Guarita, localizada no norte do Rio Grande do Sul, com atenção especial às pessoas com albinismo e à prevenção do câncer de pele.
A região despertou o interesse de pesquisadores após atendimentos realizados pelo Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) identificarem, ali, uma ocorrência de albinismo superior à observada na população em geral. A descoberta motivou estudos para compreender melhor as características genéticas da população local — e, a partir dessas observações, nasceu um projeto de acompanhamento dermatológico acoplado ao trabalho já existente da Genética da UFRGS.
Neste ano, a iniciativa passa a contar com o apoio oficial da Sociedade Brasileira de Dermatologia dentro das ações do World Skin Health Day. Batizada de Projeto Guarita pela SBD, a ação reunirá dermatologistas voluntários para dar continuidade ao trabalho assistencial já desenvolvido na região em parceria com a UFRGS.
A próxima edição do projeto está marcada para os dias 16 e 17 de julho e passa a integrar oficialmente as atividades do World Skin Health Day no Brasil — uma forma concreta de conectar a mobilização global a uma realidade local que, sem essa atenção específica, dificilmente teria acesso ao cuidado dermatológico especializado.
O Projeto Guarita representa de forma concreta o espírito da campanha mundial. Além de conscientizar a população sobre a importância da saúde da pele, buscamos ampliar o acesso ao cuidado dermatológico em populações que enfrentam maiores barreiras de assistência. Essa é uma das missões da SBD e da dermatologia brasileira.
Serviço
- Evento: Projeto Guarita (assistência dermatológica em comunidade indígena)
- Data: 16 e 17 de julho
- Local: Terra Indígena Guarita, norte do Rio Grande do Sul
- Realização: Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), em parceria com a UFRGS
- Contexto: parte das ações do World Skin Health Day, promovido pela ILDS

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