Em um cenário onde algoritmos definem o fluxo de informações e a exposição da intimidade se torna regra, pesquisadores internacionais desembarcam na capital fluminense para analisar as engrenagens do controle digital através do pensamento contemporâneo, provando que a filosofia é ferramenta essencial para decifrar a vida cotidiana.
A percepção de que as plataformas digitais possuem um conhecimento profundo sobre a vida privada deixou de ser apenas uma impressão especulativa. A dinâmica de quem decide o que ganha destaque ou o que desaparece nas telas expõe uma estrutura onde a liberdade é cada vez mais direcionada e rastreada. Para dissecar a mecânica desse monitoramento, o Colóquio Internacional “Qual é a ironia do dispositivo hoje? Sujeito, poder e desejo” ocupa a Acaso Cultural, localizada em Botafogo, no Rio de Janeiro, entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro de 2026.
Cem anos depois de seu nascimento, o filósofo continua provocando uma pergunta incômoda: quem está nos governando quando ninguém parece estar dando ordens?

O poder disciplinar que não usa a força
O evento marca o centenário do nascimento de Michel Foucault retirando sua obra do isolamento teórico e aplicando seus conceitos aos dilemas tecnológicos. Durante três dias, os debates irão focar em como a tecnologia vem alterando a relação do sujeito consigo mesmo e com a sociedade. O painel discute a produção da verdade, a orientação do desejo e as novas modalidades de vigilância que funcionam de maneira fluida e quase invisível, ancoradas na adesão voluntária dos usuários à rede.
A organização do colóquio é assinada pelo filósofo Marcio Tavares d’Amaral e pela pesquisadora argentina Senda Sferco, do Instituto Gino Germani. A programação promove um cruzamento de perspectivas entre a Europa e a América Latina sobre o controle social contemporâneo, reunindo pesquisadores como Paula Sibilia, Fernanda Bruno, Ernani Chaves, César Candiotto, Carla Rodrigues, Margareth Rago, Paulo Vaz e Marcelo Raffin.
Manuscritos inéditos e os limites do desejo
Um dos eixos analíticos de destaque no evento é a presença do filósofo francês Orazio Irrera, professor da Universidade Paris 8 e pesquisador ativo do Centre Michel Foucault. Responsável por investigar arquivos e manuscritos ainda não publicados do autor, Irrera conduzirá a conferência de abertura do colóquio, além de ministrar um curso intensivo para o público nos dias 3 e 4 de setembro.
O encerramento do encontro retomará a provocação central das atividades por meio da conferência “A ironia do dispositivo hoje é simular ser o último”, conduzida por Tavares d’Amaral. A reflexão aponta para a falsa sensação de que as atuais arquiteturas digitais e algoritmos de comportamento são as formas definitivas de organização da vida, questionando abertamente o futuro da liberdade.
Serviço
- Colóquio Internacional “Qual é a ironia do dispositivo hoje? Sujeito, poder e desejo”
- Quando: 31 de agosto, 1º e 2 de setembro de 2026
- Onde: Acaso Cultural — Rua Vicente de Souza, 16, Botafogo, Rio de Janeiro
- Entrada: Gratuita, mediante inscrição prévia
- Programação e Inscrição: https://acasocultural.com/progfoucault
- Curso Intensivo com Orazio Irrera: 3 e 4 de setembro de 2026
