A genialidade rítmica e poética de um dos maiores arquitetos da música brasileira ganha contornos contemporâneos e saudosistas em “Viva Donato”, um tributo que une gerações da MPB para celebrar a imortalidade da obra do compositor falecido em 2023.
O projeto reconstrói clássicos e apresenta composições inéditas pelas vozes de Gilberto Gil, Bebel Gilberto, Djavan, Fafá de Belém, entre outros gigantes. Lançado em 28 de agosto pelo Selo Sesc, a produção destaca o que sempre definiu a arte de João Donato: a capacidade de promover conexões afetivas através de arranjos sutis que transitam entre a bossa nova, o jazz e a música afro-latina.
“Esse modo facilitador que ele tinha, de promover o escorrimento do afeto. Com que o afeto escorresse de forma muito suave, como se fosse um riacho. Era a cara dele.”

Encontros geracionais e memórias partilhadas
O disco tem sua abertura marcada por “A Paz”, célebre parceria de 1986, agora revivida por Gil e Mônica Salmaso, sob o arranjo orquestral de Dori Caymmi. As releituras do projeto funcionam como um mosaico da intimidade musical do homenageado, nascido no Acre e projetado mundialmente a partir do Rio de Janeiro.
Em “Nua Ideia”, composição apresentada ao público no álbum “Plural” (1980), de Gal Costa, a suavidade toma conta da nova versão interpretada por Bebel Gilberto, que resgata as lembranças de sua própria formação musical ao lado do mestre. O saudosismo também dita o compasso de “Até quem sabe” (1973), na interpretação reflexiva de Joyce Moreno, e na nostálgica “Falta de ar”, entoada com precisão por Djavan.
Ineditismo, arranjos e o suingue preservado
Além das revisões históricas, o projeto revela criações que até então permaneciam guardadas. A inédita “Aquela delícia singela” ganha a interpretação cadenciada de Silva, evidenciando as aliterações características do universo donatiano. Outra surpresa é “Vamos Combinar”, um diálogo sonoro entre Marcos Valle e Patrícia Alvi, concretizando uma parceria antiga na qual as poucas notas e a sofisticação harmônica guiam a melodia.
O balanço inconfundível se mantém vivo com João Bosco assumindo a complexa cadência de “A Rã” (1960), enquanto o filho do homenageado, Donatinho, imprime uma atmosfera solar ao bolero “Lua Dourada” (1986). A festa rítmica se completa com a força interpretativa de Margareth Menezes na icônica “Emoriô” (1975) e o encerramento suingado de Fernanda Abreu em “Nasci para bailar”.

Serviço
- Álbum: Viva Donato (15 faixas)
- Lançamento: 28/8 nas principais plataformas de áudio, Sesc Digital e Lojas Sesc
- Produção executiva: Acre Musical e Oreiro Produções
- Direção artística: Regina Oreiro e Ivone Belem
- Principais arranjadores: Dori Caymmi, Marcos Valle, Kassin, Jaques Morelenbaum e Donatinho






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