A tradição secular da produção manual que atravessou transformações territoriais no norte de Minas Gerais ganha destaque no Rio de Janeiro por meio do trabalho de bordadeiras e tecelãs do Vale do Jequitinhonha.
O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) apresenta a produção tradicional do Alto Jequitinhonha na exposição Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG, montada na Sala do Artista Popular. Com pesquisa de campo e textos de catálogo assinados pela historiadora Ana Lima Kallás, a iniciativa reúne um acervo que une saberes manuais e memória coletiva.
Desde cedo cresci com tecidos e bordados ao redor. Primeiro, eu ajudava a preparar o algodão para fazer o fio e depois tecer. Os tecidos mais grossos, minha mãe fazia as iniciais de todos com ponto cruz, ela falava ponto de marca, para identificar os donos de cada item.
O relato pertence à artesã Maria Aparecida das Graças Oliveira, de 63 anos, presidente da Associação de Artesãos de Turmalina (Astur). A trajetória familiar reflete uma prática comum entre gerações de mulheres da região, onde a preparação do algodão e o ponto de agulha integraram a vida doméstica e de subsistência antes de se tornarem ferramenta formal de autonomia económica.

Marcas da terra e resistência pelo fio
A produção das peças carrega relação direta com a ocupação do território de Turmalina e Veredinha. Documentada desde os relatos de naturalistas europeus no século 19, como Saint-Hilaire, a colheita, o descaroçamento e a fiação do algodão estruturaram a vida local. Originalmente voltadas para aquecer famílias e confeccionar cobertores, as peças ganharam novas funções diante das mudanças econômicas severas que afetaram o solo regional a partir dos anos 1970.
Com o avanço da monocultura de eucalipto nas chapadas e o secamento de cursos d’água documentados por pesquisadores, as mulheres mantiveram no tear e nas agulhas um espaço de continuidade cultural. A articulação comunitária resultou na criação de entidades organizadas como a Astur, fundada em 1992, a Associação Comunitária dos Artesãos de Turmalina (Soarte) e a Associação dos Artesãos de Veredinha (Artever).

O poder das redes cooperativas
Para estruturar a mostra atual, foram entrevistadas 40 mulheres das duas localidades mineiras. A dinâmica revela como o associativismo transformou o ofício individual em um arranjo coletivo capaz de negociar insumos, padronizar acabamentos e viabilizar a sustentabilidade das famílias envolvidas na atividade.
A programação de estreia reúne Maria Aparecida ao lado de Ilma Gonçalves de Oliveira, da Soarte, e de Monique Sthefany Rodrigues Sobrinho, da Artever, em debate aberto sobre criação e gestão. As obras expostas, que vão de toalhas e vestimentas a artigos de decoração em algodão puro bordado, também estarão disponíveis para aquisição do público visitante com valores entre R$ 50 e R$ 1,5 mil.

Serviço
- Exposição: 218º da Sala do Artista Popular: Arte têxtil de Turmalina e Veredinha – Jequitinhonha, MG
- Período: 17 de setembro a 29 de novembro
- Abertura: 17 de setembro, das 17h às 20h
- Roda de conversa: 17 de setembro, às 15h, com Maria Aparecida das Graças Oliveira (Astur), Ilma Gonçalves de Oliveira (Soarte) e Monique Sthefany Rodrigues Sobrinho (Artever)
- Local: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179, Catete, Rio de Janeiro – RJ
- Visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h
- Entrada: Franca
- Telefone: 21 3032.6052
- Realização: Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan) e Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec)




