A fusão entre técnicas germânicas de conservação e ingredientes locais transformou o filé duplo no corte mais emblemático das quermesses comunitárias no Sul do país.
A união de contrafilé, filé mignon e uma fração de fraldinha em torno de um osso dorsal estrutura o corte batizado popularmente como filé de igreja. O método de preparo remonta a meados do século 19, quando imigrantes alemães e italianos se estabeleceram na região sulista. Para contornar a escassez de refrigeração, as famílias adaptaram a técnica da Renânia conhecida como sauerbraten, assado que tradicionalmente usava vinagre de maçã e vinho tinto para conservar a proteína animal antes do cozimento.
O filé duplo é um corte bovino com osso que reúne, em uma única peça, o contrafilé, o filé mignon e uma parte da fraldinha. O osso da espinha dorsal fica no meio, lembrando uma chuleta larga, e essa combinação resulta em texturas e sabores diferentes em cada fatia.

Adaptação regional e a marinada de 24 horas
Ao se fixarem em locais como o Vale do Itajaí, os colonos substituíram o vinho e o vinagre originais pelo suco de limão, abundante nas lavouras locais. Diferente do hábito alemão de assar carnes em recipientes fechados, o contato com o território sul-brasileiro consolidou o preparo sobre a grelha em brasa direta. Como o insumo era caro e racionado para ocasiões de casamentos e celebrações paroquiais, o preparo foi adotado como atrativo para arrecadar fundos nas quermesses religiosas.
O processo artesanal exige repouso prévio de 24 horas em líquido composto por água, sal, rodelas de cebola e caldo de limão. Esse tempo de descanso amacia as fibras e garante retenção de umidade durante a cocção em fogo intenso. Na mesa das festas comunitárias, o prato chega escoltado pela própria cebola do molho, pão francês, maionese de batatas caseira, pepinos em conserva e salada fresca de tomate.

Resistência cultural nas mesas de celebração
O chef Caio Fontenelle, responsável pela cozinha do Figueira, em Blumenau, destaca que o equilíbrio térmico promovido pela capa de gordura e pelo osso central impede o ressecamento do bife largo quando exposto ao calor direto. Esse perfil atrai gerações inteiras de moradores que continuam frequentando festividades de paróquia no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina para compartilhar bancos de madeira e grandes travessas.
A data festiva de 2 de setembro, marco do aniversário da cidade catarinense, motivou uma programação gastronômica com foco exclusivo na receita tradicional dentro do restaurante especialista em grelhados na parrilla. O corte especial entra no cardápio acompanhado de guarnições da própria casa para resgatar a memória dos banquetes comunitários.
Serviço
- Local: Restaurante Figueira
- Programação: Quarta-feira (02/09) no jantar; sextas e sábados de setembro no almoço
- Valor: R$ 196,00 (com acompanhamentos da casa)
- Horário de funcionamento: Jantar de segunda a domingo das 18h30 até 0h (sábados abre às 19h); almoço de sexta a domingo das 11h30 às 14h30
