Antiga Galeria Scenarium amplia atuação e assume novo nome com exposições, Biblioteca Carioca e auditório reativado; programação inclui teatro, dança e música.
O Grupo Scenarium transforma seus espaços na Rua do Lavradio em pontos de encontro da primeira Semana de Arte do Rio, que acontece de 16 a 27 de setembro em diferentes endereços da cidade. Durante os 12 dias do evento, Centro Cultural Lavradio, Rio Scenarium e Dolores Club recebem uma programação que atravessa artes visuais, patrimônio e memória, teatro, dança e música.
Um dos principais marcos da participação do grupo será a apresentação da nova fase da antiga Galeria Scenarium, que, após dez anos de funcionamento, amplia sua atuação e passa a se chamar Centro Cultural Lavradio. Mais do que uma mudança de nome, a transformação acompanha a expansão da proposta cultural do espaço, instalado em um casarão de 1874 na histórica Rua do Lavradio.

Nova fase com auditório e biblioteca
A nova etapa inclui a reativação do auditório, destinado a debates, palestras, lançamentos de livros, apresentações e encontros culturais; a inauguração da Biblioteca Carioca, dedicada à história e à memória da cidade; e uma programação de exposições que aproxima arte contemporânea, acervos históricos e diferentes narrativas sobre o Rio de Janeiro.
Durante a Semana de Arte do Rio, o Centro Cultural Lavradio terá funcionamento ampliado, de quarta a domingo, das 10h às 18h, com entrada gratuita. Entre os destaques estão a coletiva “Rio, Abraço Coletivo”, com cerca de 50 obras de 25 artistas; a inédita “Guerreiras”, de Charles Barreto; a nova exposição “Uma Viagem à Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, construída a partir de objetos, documentos e imagens relacionados à história da cidade; uma homenagem ao artista Bispo do Rosário e “Azul Cobalto – Azulejos e Memórias”, que apresenta uma seleção da Coleção Nelson Torzecki, formada por cerca de 3 mil peças.
As peças deixam de ser meros objetos decorativos para se tornarem guardiãs de memórias, assumindo o papel de protetoras de um templo interior onde a vulnerabilidade é transformada em escudo.
Guerreiras: poética visual em assemblages
O embate entre o passado e a contemporaneidade ganha contornos de pura poética visual na exposição do artista e diretor cultural do Grupo Scenarium, Charles Barreto. A mostra apresenta uma série inédita de assemblages criadas a partir de um objeto insólito e carregado de história: antigos moldes de madeira utilizados na chapelaria.
Resgatados do esquecimento e transformados em suporte para novas composições, os objetos dão origem a figuras femininas que evocam soberania, resistência e altivez. Cada obra funciona como um monumento à força da mulher, coroada não apenas por adornos, mas por sua própria trajetória de lutas e conquistas.
O processo de criação utiliza o contraste de texturas e temporalidades. A rusticidade da madeira antiga e desgastada e o peso dos objetos vintage dialogam diretamente com a transparência e o brilho moderno do cristal e do acrílico. Essa justaposição cria um jogo sofisticado de luz e sombra, onde o frágil e o resistente se fundem, espelhando a complexidade da alma feminina: profunda, multifacetada e indestrutível.
Homenagem a Bispo do Rosário
Duas obras de grandes dimensões também do artista Charles Barreto homenageiam o artista sergipano Arthur Bispo do Rosário, que teve a maior parte da sua vida artística no Rio de Janeiro. Hoje grande parte do seu acervo está exposto no Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea (mBrac).
Uma viagem afetiva pela história carioca
A história e as transformações da cidade conduzem a exposição de caráter afetivo que reúne objetos, imagens e peças históricas para percorrer diferentes momentos da trajetória carioca. Em vez de seguir uma narrativa exclusivamente cronológica, a mostra busca aproximar o visitante das memórias, costumes e mudanças urbanas e sociais que atravessaram o Rio ao longo dos séculos.
Entre as peças apresentadas estão fotografias raras da cidade; um ampliador fotográfico do século XIX, com quatro metros de comprimento (semelhante aos utilizados por artistas como Marc Ferrez, Augusto Malta e Nicolau Facchinetti); uma forma em ferro datada do século XVII, usada no transporte de blocos de açúcar para Europa. A semelhança do penhasco carioca com esta forma deu origem ao nome Pão de Açúcar.
Também estão em exibição um raríssimo busto de Getúlio Vargas de autoria do escultor Leão Veloso, autor de monumentos como a estátua do Senador Pinheiro Machado na Praça Nossa Senhora da Paz e do monumento equestre do General Osório em Porto Alegre; e uma Carruagem Vitória do século XIX, construída pelo francês Henri Binder, e batizada em homenagem à Rainha Vitória da Inglaterra.

Azulejos que contam histórias
“Azul Cobalto – Azulejos e Memórias” apresenta uma seleção da Coleção Nelson Torzecki, acervo formado por cerca de 3 mil itens e mais de 200 tipos diferentes de azulejos, reunidos pelo colecionador e empresário a partir do final da década de 1980. Com peças provenientes de países como Holanda, França, Bélgica, Portugal, Alemanha e Inglaterra, a mostra percorre diferentes técnicas e estilos e apresenta os azulejos como testemunhos da arquitetura e da vida cotidiana ao longo dos séculos.
Entre os destaques estão exemplares da azulejaria holandesa produzidos entre os séculos XVII e XX, peças barrocas e rococós portuguesas dos séculos XVIII e XIX, registros de santos encontrados em antigas casas de subúrbio e um antigo painel da igreja do Convento de Santo Antônio, no Rio de Janeiro.
Biblioteca Carioca reúne acervo dedicado à memória do Rio
Outra novidade desta nova fase do Centro Cultural Lavradio é a Biblioteca Carioca, criada para dar maior visibilidade ao acervo bibliográfico e histórico reunido pelo artista e diretor cultural do Grupo Scenarium, Charles Barreto e do ativador cultural Plínio Fróes. Organizada em torno de temas como Rio Antigo, período em que a cidade foi capital da República, artes, personalidades e fotografia, a biblioteca nasce como um espaço de preservação e compartilhamento da memória urbana, boêmia, musical e cultural do Rio, voltado a pesquisadores, estudantes, moradores e visitantes da cidade.
Entre as raridades do acervo estão um Atlas Mundi aquarelado, datado de 1730; uma rara edição de “Os Lusíadas”, de 1880, limitada a 100 exemplares e produzida em homenagem ao imperador Pedro II; e um álbum de fotografias da Exposição de 1908. A coleção reúne ainda duas peças ligadas a Nair de Teffé: um retrato em pastel a óleo realizado pelo pintor francês Georges-Antoine Rochegrosse Guirand de Scévola e um busto em mármore de Carrara, ambos retratando a artista, caricaturista e ex-primeira-dama do Brasil.
Outro conjunto preservado é formado por 31 menus comemorativos do Jockey Club, produzidos entre 1972 e 1976, acompanhados por 31 desenhos a bico de pena com cenas do Rio de Janeiro, entre elas a antiga sede do clube na Avenida Rio Branco. Completa a seleção o raro “Álbum da Cidade do Rio de Janeiro – Homenagem à Visita de Sua Majestade Imperial Rei Alberto I ao Brasil”, de 1920, que reúne fotografias do rei Alberto I, da Bélgica, e do presidente Epitácio Pessoa, além de 103 imagens da cidade e 103 anúncios de estabelecimentos comerciais e indústrias cariocas da época.
“A Divina Comédia” ocupa diferentes ambientes do Rio Scenarium
Teatro, dança, performance, circo e música também integram a participação do Grupo Scenarium na Semana de Arte do Rio. Nos domingos 20 e 27 de setembro, o Rio Scenarium recebe “A Divina Comédia: Ritrovai-Rivedere”, espetáculo concebido pela Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, em uma versão do clássico de Dante Alighieri (1265-1321) especialmente adaptada aos ambientes da casa.
Depois do sucesso da montagem apresentada em julho nos jardins do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), Regina Miranda leva ao casarão uma nova leitura, mais sensorial, da jornada de Dante pelo Inferno, Purgatório e Paraíso. A obra é reinterpretada a partir de um olhar contemporâneo sobre a condição humana, seus desejos, quedas, memórias e possibilidades de transformação, em uma encenação que reúne 70 artistas, com idades que variam dos 12 aos 92 anos.
Distribuídos por dois andares do Rio Scenarium, os intérpretes ocuparão salas, corredores e escadas, em diálogo com a arquitetura, os objetos de arte e as memórias preservadas no casarão. O público poderá circular pelos ambientes e construir seu próprio percurso, encontrando performances simultâneas e diferentes possibilidades de acompanhar a encenação.
Música completa a programação na Rua do Lavradio
A programação musical também ocupa os espaços do Grupo Scenarium. Na quinta-feira, 17 de setembro, o baile Gafieira Rio Antigo marca a celebração dos 10 anos de trajetória e o lançamento do álbum de estreia Gafieirando, pela gravadora e produtora Kuarup. À frente do grupo está a saxofonista, flautista, compositora e pesquisadora Daniela Spielmann, doutora em música com pesquisa dedicada às gafieiras cariocas.
Ao seu lado estão os mestres Silvério Pontes (trompete) e Alexandre Romanazzi (Maionese da Flauta). A formação se completa com a cantora Alana Moraes (voz), Antonio Guerra (teclados e sanfona), Domingos Teixeira (violão e guitarra), Rodrigo Villa (contrabaixo) e Rodrigo Scofield (bateria).
Este disco de estreia apresenta composições autorais, releituras de clássicos dos bailes e homenagens a grandes nomes da música brasileira, reunindo participações especiais de Guinga, Áurea Martins, Jovi Joviniano e Everson Moraes.
Já na quinta-feira, 24 de setembro, a Secretaria Municipal de Cultura traz para o Dolores Club a apresentação do Duo Acariocando, de Fábio Pascoal (escaleta, sanfona e percussão), filho de Hermeto Pascoal, e Rubinho Effe (violão). O espetáculo O Som do Rio traz canções de grandes compositores cariocas e de outras cidades, que escolheram o Rio para morar e criar.
No repertório, clássicos como Carinhoso (Pixinguinha), O mundo é um moinho (Cartola), Bebê (Hermeto Pascoal), e Canto de Ossanha (Baden Powell), além de composições próprias como, Dadá e Enquanto isso no Jabour, do violonista Rubinho Effe. O show tem entrada gratuita, com retirada de ingressos pelo Sympla.
Semana de Arte do Rio
Entre os dias 16 e 27 de setembro de 2026, a primeira edição da Semana de Arte do Rio reunirá festivais de diferentes linguagens artísticas, além de exposições, intervenções urbanas e atividades culturais realizadas em equipamentos públicos e privados da região central da cidade. A programação reúne tanto projetos já consolidados na cena cultural carioca quanto festivais mais recentes, que refletem a diversidade e a produção artística contemporânea.
Concebida como uma plataforma continuada de integração de políticas culturais, a Semana de Arte do Rio articula cultura, turismo, desenvolvimento econômico e urbanismo em uma estratégia compartilhada da Prefeitura para fortalecer o ecossistema cultural da cidade. Ao integrar festivais, instituições culturais, artistas e agentes do setor em uma programação agendada, planejada e articulada, a iniciativa amplia o alcance das ações culturais, promove a ocupação dos espaços públicos e reforça a posição do Rio de Janeiro como referência nacional e internacional na produção artística contemporânea.

Serviço
Centro Cultural Lavradio (antiga Galeria Scenarium)
A Divina Comédia: Ritrovai-Rivedere
Gafieira Rio Antigo + lançamento do álbum Gafieirando
Duo Acariciando, com Fábio Pascoal e Rubinho Effe
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