Uma única menção a um antigo dono de casa de apostas em Salvador serviu de chave para desvendar a infância desconhecida do jurista que transformou as leis brasileiras.
O abolicionista Luiz Gama jamais registrou formalmente a identidade de seu pai, mas deixou anotado o nome de um amigo inseparável da família na capital baiana. Ao puxar esse fio histórico, o pesquisador Bruno Rodrigues de Lima reconstruiu os passos iniciais daquele que se tornaria uma das maiores vozes contra o sistema escravocrata do país, reunindo as descobertas na obra Pai contra Mãe – As Origens Perdidas de Luiz Gama.
O livro Pai contra Mãe reconstitui um capítulo panorâmico da infância de Gama. Na minha tese acadêmica, respondo a como Gama aprendeu, praticou e escreveu o Direito, defendendo o argumento de que Luiz Gama é o maior jurista da história do Brasil e o maior abolicionista da história do mundo
O lançamento do título ocorreu no Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ) em 10 de setembro, integrando a programação do projeto Do Direito à Literatura. Com mediação de Roberta de Araujo, coordenadora do gabinete da direção do espaço, o debate detalhou a dimensão das estratégias jurídicas concebidas por Gama, que resultaram na libertação direta de mais de 700 indivíduos escravizados.

A reconstrução de uma trajetória ignorada
Jurista, advogado autodidata e poeta, Gama conquistou a própria alforria antes de desafiar as estruturas imperiais nos tribunais. Em um dos episódios mais expressivos de sua atuação, registrado em 1872 na cidade do Rio de Janeiro, uma única tese elaborada por ele garantiu a liberdade de mais de duas centenas de pessoas simultaneamente.
Doutor em Direito e em Sociologia por instituições da Alemanha, Bruno Lima investiga a produção do autor há cerca de duas décadas. Finalista do Prêmio Jabuti Acadêmico com o livro Luiz Gama contra o Império, o historiador também coordena a edição das Obras Completas de Luiz Gama, coleção estruturada em 11 volumes com publicação integral prevista até 2028 pela editora Hedra.

Proximidade temporal e impacto no presente
O primeiro contato do pesquisador com a memória de Gama aconteceu na adolescência, aos 13 anos, durante conversas com Tia Lula, líder religiosa de um terreiro de umbanda no interior paulista. A mãe de Tia Lula, conhecida como Vó Amélia, havia nascido em 1870 e viveu nos mesmos anos em que o abolicionista transitava pelo debate público.
Essa linha direta entre os relatos orais e o período escravista reforça que o fim do cativeiro oficial está localizado em uma camada temporal recente. A interpretação das leis desenvolvida por Gama permanece como instrumento central para decifrar contradições institucionais que atravessam os séculos e se refletem diretamente nos impasses políticos contemporâneos.
Serviço
- Livro: Pai contra Mãe – As Origens Perdidas de Luiz Gama
- Autor: Bruno Rodrigues de Lima
- Local do lançamento: Centro Cultural do Poder Judiciário (CCPJ)
- Programa: Do Direito à Literatura
