A transformação da antiga Galeria Scenarium no novo Centro Cultural Lavradio marca a ampliação de um espaço centenário dedicado às artes visuais, à pesquisa histórica e à preservação da memória urbana da capital fluminense.
Instalado em um casarão histórico de 1874 no Centro da cidade, o endereço comemora dez anos de trajetória remodelando sua atuação. A mudança institucional traz a reativação do auditório para palestras, debates e lançamentos literários, além do nascimento da Biblioteca Carioca e de uma série de mostras de artes visuais integradas à Semana de Arte do Rio.
As peças deixam de ser meros objetos decorativos para se tornarem guardiãs de memórias, assumindo o papel de protetoras de um templo interior onde a vulnerabilidade é transformada em escudo.

Resgate de moldes fabris e poéticas visuais
Entre as atrações principais está a exposição individual “Guerreiras”, assinada pelo artista e diretor cultural Charles Barreto. A pesquisa visual parte de antigos moldes de madeira da chapelaria tradicional resgatados do descarte para erguer esculturas e assemblages que representam a altivez e a soberania de figuras femininas.
As texturas rústicas da marcenaria desgastada encontram o brilho e a transparência do cristal e do acrílico, estabelecendo contrastes entre temporalidades e luminosidades. Barreto também exibe duas obras em grande escala dedicadas à trajetória estética do mestre sergipano Arthur Bispo do Rosário, cuja maior parte da produção ocorreu em solo carioca.
A produção coletiva ocupa as galerias com a mostra “Rio, Abraço Coletivo”, que reúne cerca de 50 trabalhos de 25 criadores atuantes em diferentes linguagens e polos artísticos, como o circuito da Fábrica Bhering e publicações da revista ARTNow Report.

Testemunhos materiais e memórias da capital
O percurso historiográfico ganha forma em “Uma Viagem à Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, mostra afetiva que reúne peças singulares do desenvolvimento urbano. O circuito apresenta desde um ampliador fotográfico de quatro metros datado do século XIX até uma forma de ferro do século XVII utilizada no transporte de açúcar para a Europa, artefato cuja silhueta inspirou a denominação do Pão de Açúcar.
A coleção traz ainda um busto de Getúlio Vargas esculpido por Leão Veloso e uma carruagem modelo Vitória fabricada pelo francês Henri Binder no século XIX, veículo que circulava por vias célebres como a própria Rua do Lavradio.
Na exposição “Azul Cobalto – Azulejos e Memórias”, o público encontra recortes da Coleção Nelson Torzecki. O conjunto conta com mais de 200 tipologias e peças produzidas entre os séculos XVII e XX vindas de países como Holanda, Portugal, Alemanha, Bélgica, França e Inglaterra, incluindo painéis sacros e vestígios decorativos de antigos palacetes brasileiros.

Biblioteca Carioca e valorização documental
A estruturação da Biblioteca Carioca, desenvolvida por Barreto ao lado do ativador cultural Plínio Fróes, coloca à disposição de pesquisadores um acervo sobre o Rio Antigo, as artes gráficas e a boemia musical. O inventário guarda um Atlas Mundi aquarelado de 1730 e um exemplar raro de “Os Lusíadas” de 1880, limitado a 100 cópias em homenagem a Dom Pedro II.
Outros destaques documentais incluem registros dedicados à caricaturista Nair de Teffé, 31 cardápios comemorativos do Jockey Club desenhados a bico de pena e o álbum da visita do rei Alberto I da Bélgica ao Brasil em 1920, que documenta paisagens industriais e comerciais da época.
Serviço
- Local: Centro Cultural Lavradio (antiga Galeria Scenarium)
- Endereço: Rua do Lavradio, 15 – Centro, Rio de Janeiro
- Período na Semana de Arte do Rio: 16 a 27 de setembro de 2026
- Horário: Quarta a domingo, das 10h às 18h
- Entrada: Gratuita
- Contato: 21 96525-4226
- Instagram: @centroculturallavradio
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