Camadas visuais sobrepostas desenterram as marcas ecológicas e o passado de exploração da maior floresta urbana replantada do planeta.
A relação entre sobrevivência ambiental, finitude e intervenção humana ganha forma na produção da artista visual carioca Sandra Gonçalves. Em sua primeira mostra individual na capital paulista, a artista apresenta um conjunto de 14 fotografias coloridas que investigam a complexa trajetória da Floresta da Tijuca, território devastado entre os séculos XVIII e XIX e recuperado a partir de 1861 durante o Brasil Império.
O que persiste não é a pureza de uma origem, mas a possibilidade de a vida voltar a acontecer à revelia do bicho homem.

Camadas visuais contra a ilusão do domínio humano
Com curadoria de Eder Chiodetto, o trabalho estrutura imagens verticais de grande formato dedicadas ao bioma da Mata Atlântica e a espécies como macaco, onça, arara, capivara e beija-flor. Longe do recurso tradicional da dupla-exposição, a técnica adotada opera por sobreposições intencionais que confrontam tempos históricos e a ação predatória da civilização.
Uma das obras centrais, em escala de 110 por 150 centímetros, presta tributo direto aos escravizados que foram submetidos aos trabalhos de reflorestamento da área florestal fluminense no século XIX. O percurso visual completa-se com um registro horizontal panorâmico do voo de araras, articulando um diálogo com o conceito de fogo-fátuo, a fugaz chama associada a brejos e pântanos que habita o imaginário popular sob nomes como boitatá e fogo corredor.
O ensaio visual ancora suas indagações na crítica à mercantilização predatória da terra, aproximando-se das reflexões do pensador yanomami Davi Kopenawa sobre a destruição ecológica provocada pela ilusão de controle sobre o mundo vivo. A série questiona a lógica de extração que trata os ecossistemas como mercadorias descartáveis e substituíveis.

Trajetória e pesquisa na cena fotográfica
Docente titular e pesquisadora na área da fotografia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Sandra Gonçalves constrói sua pesquisa artística a partir dos conflitos sociais, culturais e da finitude. Autora dos fotolivros Cápsula e La vie en Rouge, a artista teve sua primeira individual no ano 2000, voltada às carvoarias cariocas, e mantém trabalhos em coleções de instituições como o Museu da República e o Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul.
A temporada na OMA Galeria marca a reunião integral da série, que teve registros prévios exibidos em mostras coletivas ao longo de 2026 em eventos como a ArtRio, o Festival de Fotografia de Paranapiacaba, a Aliança Francesa e o Sesc Paraná.
Serviço
- Exposição: Fogo-fátuo, de Sandra Gonçalves
- Texto e curadoria: Eder Chiodetto
- Abertura: 26 de setembro de 2026, das 10h às 15h
- Visitação: 26 de setembro a 31 de outubro de 2026
- Horários: Quarta a sexta-feira, das 12h às 19h; sábado, das 10h às 15h
- Local: OMA Galeria
- Endereço: Rua França Pinto, 1100, Loja 2, Vila Mariana, São Paulo – SP
- Entrada: Gratuita
- Contato: (11) 97153-3107 | comunicacao@omagaleria.com
- Informações: https://omagaleria.com/
