Uma seleção de obras marcantes da cinematografia nacional revela como produções brasileiras moldaram olhares, conquistaram prêmios internacionais e registraram recortes profundos da história do país.
A celebração do Dia do Cinema Brasileiro em 5 de novembro resgata o marco da primeira exibição pública audiovisual realizada no país, ocorrida em 1896, no Rio de Janeiro. A data convida o público a valorizar a produção nacional e a ocupar as salas de exibição. As indicações reunidas partem do olhar pessoal da produtora audiovisual e atriz Lara Ferry, autora do livro “A privacidade é um luxo que o escritor não pode ter”.
O nosso cinema não precisa de aplauso de fora, mas precisa de mais gente dentro da sala.
A lista reúne trabalhos fundamentais que não ficam atrás de produções estrangeiras, deixando de fora por limite de espaço nomes expressivos como Glauber Rocha, Kleber Mendonça Filho, Nelson Pereira dos Santos, Adélia Sampaio e Zózimo Bulbul.

Obras-primas da comédia, do drama e do cinema mudo
Lançado no ano 2000, “O Auto da Compadecida”, dirigido por Guel Arraes, é apontado por Lara Ferry como o melhor filme brasileiro de todos os tempos. Baseada na peça de Ariano Suassuna, a comédia acompanha João Grilo e Chicó no sertão. O julgamento no além, com Fernanda Montenegro no papel da Compadecida, atesta como um bom texto e a força da interpretação teatral encontram perfeição na linguagem cinematográfica.
No campo dos clássicos premiados, “O Pagador de Promessas” (1962), de Anselmo Duarte, permanece como o único longa brasileiro a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Adaptado da obra de Dias Gomes, o enredo retrata Zé-do-Burro, interpretado por Leonardo Villar, em sua jornada carregando uma cruz até a igreja de Santa Bárbara, em Salvador, para cumprir uma promessa feita em terreiro de candomblé, enfrentando a recusa do padre local.
Outro marco histórico é “Limite” (1931), único longa dirigido por Mário Peixoto, realizado aos 22 anos. A trama sem som apresenta três pessoas à deriva em um barco, relembrando suas vidas enquanto navegam sem rumo.
Adaptações literárias e encontros entre realidade e encenação
A literatura também encontra espaço marcante em “A Hora da Estrela” (1985), sob a direção de Suzana Amaral. Adaptando o romance de Clarice Lispector sobre Macabéa, jovem datilógrafa nordestina na cidade grande, o longa consagrou Marcélia Cartaxo, que se tornou a primeira atriz brasileira a vencer o Urso de Prata de melhor atriz no Festival de Berlim, em 1986.
No âmbito documental e investigativo, Eduardo Coutinho assina duas produções cruciais. Em “Jogo de Cena” (2007), mulheres responderam a um anúncio de jornal para relatar suas histórias no palco de um teatro. As narrativas foram reencenadas por atrizes como Fernanda Torres e Marília Pêra, diluindo as fronteiras entre a vida real e a representação artística.
Em “Cabra Marcado para Morrer” (1984), Coutinho abordou a história do líder camponês João Pedro Teixeira. As filmagens iniciadas em 1964 foram interrompidas pelo golpe militar e retomadas apenas em 1981, quando o cineasta reencontrou a viúva Elizabeth Teixeira, que vivia escondida desde o início da repressão.
Olhares contemporâneos e a denúncia da dor social
Entre os trabalhos recentes destaca-se “Manas” (2024), primeiro longa de ficção dirigido por Marianna Brennand. Fruto de mais de dez anos de pesquisa sobre a exploração sexual de meninas na Ilha do Marajó, o filme retrata Marcielle, jovem de 13 anos vivida por Jamilli Correa, que enfrenta a violência familiar. A obra foi laureada com o prêmio máximo da mostra Giornate degli Autori no Festival de Veneza.
Encerrando a seleção, “Pixote: a lei do mais fraco” (1981), de Hector Babenco, expõe temas centrais do cenário social brasileiro, como violência, drogas e escassez de educação. O personagem principal foi interpretado por Fernando Ramos da Silva, jovem que não era ator profissional e que morreu aos 19 anos, em 1987, baleado pela polícia.
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