A trajetória de Alberto Cavalcanti, diretor que influenciou os rumos do cinema mundial e acabou esquecido pela memória nacional, ganha as telas em documentário inédito na Mostra de São Paulo.
Poucos nomes tiveram um trânsito internacional tão amplo quanto Alberto Cavalcanti na primeira metade do século XX. O cineasta trabalhou ao lado de Jean Renoir, dividiu o cenário britânico com Alfred Hitchcock e codirigiu “Dead of Night”, título apontado por Martin Scorsese como um dos mais aterrorizantes da história. Ao todo, esteve envolvido em mais de 110 filmes rodados em países como França, Inglaterra, Alemanha, Israel e Brasil, deixando marcas definitivas na gramática do documentário contemporâneo.
Guiado pela voz do cineasta, o documentário reúne mais de 500 itens de arquivo e propõe uma reflexão sobre quem tem o direito de pertencer à história do cinema.
Essa longa ausência dos holofotes é o ponto de partida do longa-metragem “Cavalcanti”, dirigido pelos cineastas Jairo Neto e Graubi Garcia, com produção assinada pela Animal Filmes. O filme fará sua estreia mundial na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no dia 18 de outubro. No ano anterior, o projeto já havia chamado a atenção do festival ao receber menção honrosa na seção de desenvolvimento Work in Progress.

Ascensão na Europa e retorno conturbado ao país natal
A narrativa investiga o enigma em torno do apagamento de Cavalcanti após anos de relevância internacional. Integrante de destaque da vanguarda francesa durante a década de 1920, ele se transferiu para Londres para integrar o GPO Film Unit, núcleo cinematográfico dos Correios britânicos célebre por obras como “Night Mail”. Cavalcanti assumiu a liderança do setor, que mais tarde virou o Crown Film Unit, responsável pelas produções oficiais durante a Segunda Guerra Mundial, antes de se tornar peça-chave nos Ealing Studios e dirigir “Went the Day Well?”.
A tentativa de repatriamento profissional aconteceu na década de 1950, quando o realizador voltou com a meta de estruturar uma indústria cinematográfica no Brasil. O plano enfrentou resistência corporativa, perseguição política e preconceitos locais, acelerando o silenciamento de sua relevância nas décadas seguintes.
A primeira exibição pública do filme carrega um simbolismo cronológico evidente: foi precisamente em outubro de 1953 que o realizador organizou a avant-première mundial de “O Canto do Mar” no Museu de Arte de São Paulo, pouco antes de retornar em definitivo ao continente europeu. Agora, sua trajetória volta a ser projetada na mesma cidade após mais de sete décadas.

Resgate histórico sustentado por acervos internacionais
Para levantar a complexa teia documental da obra, os diretores reuniram mais de 500 materiais de pesquisa, boa parte jamais vista pelo público. O trabalho teve sustentação institucional da Cinemateca Brasileira e do British Film Institute (BFI), órgãos guardiões dos principais registros deixados pelo cineasta nos polos onde mais produziu.
Financiado pelo ProAC SP 2023, o longa passou por laboratórios de mercado e eventos do setor audiovisual, incluindo LatAm Content Meeting, Sunny Side of the Doc, RIO2C, DocSP, Lab Montagem do Panorama Internacional Coisa de Cinema e DocLab Coimbra 2026. A realização marca a estreia em longas de Neto e Garcia, que já haviam colaborado no premiado “Narrativas do Pós” (2021).

Serviço
- Exibição do documentário “Cavalcanti” na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
- Data: Domingo, 18 de outubro de 2026
- Locais e salas: Serão anunciados durante a semana da programação do festival
- Período da Mostra de SP: 15 a 29 de outubro de 2026
- Ficha técnica do longa: Direção e Roteiro de Jairo Neto e Graubi Garcia; Produção de Guilherme Severo e Jairo Neto; Argumento de Natália Pucci Vestri; Montagem de Graubi Garcia; Trilha sonora de Pedro Vituri
- Duração: 100 minutos | Países e idiomas: Brasil (português, inglês e francês)
