Premiada em Cannes, “Nigrum Corpus” chega aos hospitais Samaritano e Vitória no Rio até 30 de abril para confrontar o viés racial na medicina brasileira.
Nem todas as doenças aparecem em exames clínicos. Essa é a premissa que sustenta a exposição Nigrum Corpus, iniciativa do Instituto Yduqs e do IDOMED que transforma em experiência visual um debate urgente: o racismo estrutural no atendimento médico. Gratuita e aberta ao público, a mostra pode ser visitada até o dia 30 de abril nos hospitais Samaritano e Vitória, na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro, unidades da Rede Américas, segunda maior rede hospitalar do Brasil.
A exposição percorre os corredores hospitalares por meio de cartazes que traduzem relatos e estudos sobre preconceito e desigualdade racial na saúde. O objetivo é direto: criar um caminho de letramento étnico-racial para estudantes, profissionais da saúde e instituições de ensino que raramente veem esse tema ocupar espaço dentro da própria medicina.
Do livro premiado às paredes do hospital
A origem de tudo está no livro Nigrum Corpus, concebido pela agência Artplan. A obra reúne um estudo sobre racismo no Brasil a partir de 20 doenças fictícias — todas construídas sobre relatos reais de pacientes negros que foram negligenciados, subdiagnosticados ou mal atendidos ao longo de suas histórias com o sistema de saúde.
O projeto acumulou um histórico de premiações que poucos trabalhos brasileiros conseguem reunir. No Cannes Lions 2025, conquistou o Grand Prix em Industry Craft – Print & Publishing, além de dois Ouros, um Bronze e cinco shortlists. No Effie Awards, venceu Ouro, duas Pratas e um Bronze. No El Ojo de Iberoamérica, o desempenho foi histórico: seis Ouros, um Gran Ojo, quatro Pratas, três Bronzes e catorze shortlists, posicionando o projeto entre os mais premiados da América Latina no ano.
O reconhecimento não parou por aí. No AMPRO Awards, dois Ouros. No CCSP, cinco Ouros e presença no Anuário. Já o case do curta-metragem Corpo Preto, versão audiovisual do projeto, entrou como shortlist no PPA — mostrando que a força da narrativa atravessa formatos.
Educação como instrumento de transformação
Acreditamos que a educação é uma ferramenta poderosa para promover mudanças estruturais. Ao abordar o viés racial na medicina de forma aberta e educativa, contribuímos para a construção de um sistema de saúde mais justo e igualitário.
A fala é de Cláudia Romano, presidente do Instituto Yduqs e vice-presidente do Grupo Educacional Yduqs. Para ela, o potencial transformador da iniciativa está justamente em ocupar espaços onde a formação acontece — e onde os vieses também se reproduzem.
Silvio Pessanha, CEO do IDOMED, reforça a importância de expandir o debate para além das salas de aula: “Nosso objetivo é formar médicos mais atentos, diversos, empáticos e comprometidos com uma prática verdadeiramente inclusiva.”
O programa Mediversidade por trás da mostra
A exposição integra o Mediversidade, programa desenvolvido pelo Instituto Yduqs e pelo IDOMED com foco em transformar o ensino médico no Brasil por três pilares: Ensinar, Incluir e Mobilizar. As ações já estão em andamento desde abril de 2024, com incentivo a pesquisas científicas sobre diversidade, e preveem metas concretas para os próximos anos.
Entre os compromissos assumidos estão a revisão da matriz curricular de medicina, com 70% das unidades adaptadas até dezembro de 2026, e o aumento de 35% nas vagas afirmativas para docentes no IDOMED. O programa prevê ainda a criação de um fundo de investimento para eliminar vieses na formação médica e a aquisição de manequins negros para laboratórios de simulação realística — uma mudança que pode parecer sutil, mas que altera profundamente como estudantes aprendem a identificar sintomas em diferentes peles.
Também está no horizonte o lançamento de bolsas de estudo para negros, indígenas e PCDs que se autodeclarem nos marcadores dos programas sociais, com reserva de 10% das vagas anuais.
Rede Américas também na linha de frente
Sediar a exposição não é um gesto isolado para os hospitais Samaritano e Vitória. A Rede Américas mantém grupos de afinidade internos, protocolos especializados para atendimento de pessoas trans e participa do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+. A rede também integra o Pacto Global de Inclusão de Pessoas Negras.
Trabalhamos com o Pacto Global de Inclusão de pessoas negras, cujo objetivo é colocar mais pessoas negras em papéis de liderança, para que a gente possa trazer essa transformação.
A declaração é de Ricardo Mota, diretor de gente e gestão da Rede Américas, responsável pelas áreas de RH, cultura, desenvolvimento, comunicação e diversidade da rede. Para ele, os hospitais que abrigam a exposição são um reflexo direto do compromisso institucional com os direitos humanos.
Serviço
- Local: Hospitais Samaritano Barra e Vitória — Rede Américas
- Endereço: Avenida Jorge Curi, 550 — Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
- Exposição gratuita “Nigrum Corpus”
- Data: Até 30 de abril de 2026
- Horário: das 10h às 17h



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