A diluição das fronteiras entre arte, pornografia, vida e tecnologia marca o aprofundamento da pesquisa de uma das figuras mais relevantes das artes cênicas atuais, que transforma um casarão histórico em um laboratório visceral de investigação da própria existência humana.
A atriz, diretora e pesquisadora Janaina Leite, que teve sua obra “História do Olho – um conto de fadas pornô noir” apontada pelo The New York Times como um dos trabalhos de vanguarda mais surpreendentes do teatro atual, estabelece sua nova base de pesquisa no Instituto Capobianco ao longo deste semestre. O projeto, intitulado Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho, reúne quatro espetáculos, incluindo uma obra totalmente inédita, para dissecar temas como sexualidade, memória e luto.
A artista se destaca pela consistência de sua trajetória e pela profundidade de sua pesquisa na cena contemporânea mundial.
O reconhecimento internacional do trabalho da diretora ganhou novos contornos recentemente, quando Thomas Ostermeier, diretor da Schaubühne de Berlim e expoente do teatro global, citou a produção da brasileira durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) como um exemplo do que considera relevante na arte contemporânea. Essa consistência é fruto de mais de quinze anos de trabalhos junto ao Núcleo do Olho, uma rede dedicada a uma metodologia em espiral que costura filosofia, psicanálise, ciência e antropologia.

Maternidade e sexualidade sob a ótica da transgressão
A programação foi inaugurada em 4 de setembro com a reestreia de “Stabat Mater”, montagem que conquistou o Prêmio Shell de Dramaturgia e foi eleita o melhor espetáculo de 2024 em Portugal. Inspirada no ensaio da filósofa Julia Kristeva, a peça coloca a diretora em cena ao lado de sua própria mãe, Amália Fontes Leite, e do ator Lucas Asseituno.
O trabalho confronta diretamente os pilares da feminilidade e da Virgem Maria, utilizando a estética pornográfica para tensionar campos historicamente separados: o instinto materno e o desejo sexual. A obra desvenda os mecanismos sociais de gozo e dor que aprisionam as relações de gênero, permanecendo em cartaz até o início de outubro.
Ficção científica, alienígenas e o limite da consciência
O espaço também acolhe experimentações que extrapolam a realidade terrestre. A diretora e pesquisadora Lívia Machado apresenta o monólogo “Alien(nada): a Terra é uma adolescente e o Grande Filtro pode ser a autodestruição da humanidade”, estruturado como uma palestra-performance-sampler-audiovisual. A peça usa a fabulação especulativa para pensar o alienígena como território político e poético, dialogando com o laboratório “Sinestesia Alienígena”, que explora a permanência do corpo e a digitalidade.
Na sequência, o território da quase-morte é mapeado em “O Corpo Material e Imaterial e suas Borderlines”. Com base em uma autoetnografia e no trauma de um quase afogamento de seu filho mais velho, Janaina investiga um som persistente em sua própria mente, articulando deslocamento de retina em cadáveres, body art e experiências com psicodélicos para entender a linha tênue entre presença física e virtualidade.
Investigação inédita forjada em território alemão
O encerramento da ocupação culmina com a estreia de “A Caixa Preta – Versão Demo”, em 30 de outubro. A criação absorve tecnologias desenvolvidas durante uma imersão na Academy for Theatre and Digitality (ATD), em Dortmund, na Alemanha, após parceria com a instituição suíça Pro Helvetia. A peça processa as transformações irreversíveis provocadas pela tecnologia na presença humana e na memória.
A residência ainda se desdobra em atividades gratuitas, como o Laboratório de Projetos Autorais conduzido por André Medeiros Martins, entrevistas gravadas no projeto “Colisão de Inteligências” e uma “Roda de Games” sobre criação digital. As experiências estendem-se também à gastronomia no Café Capô, operado pela cozinheira Ariana Turca, criando um ponto de convivência sazonal no subsolo da instituição.
Serviço
- Residência Janaina Leite e Núcleo do Olho
- Onde: Instituto Capobianco – R. Álvaro de Carvalho, 97 – Centro Histórico de São Paulo, São Paulo – SP
- Stabat Mater: De 04.09 a 03.10.2026. Sexta e sábado às 20h, domingo às 18h. Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia) pela Sympla
- Alien(nada): De 09 a 11.10.2026. Sexta e sábado às 20h, domingo às 18h. Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia) pela Sympla
- O Corpo Material e Imaterial em suas Borderlines: De 16 a 24.10.2026. Sexta e sábado às 20h, domingo às 18h. Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia) pela Sympla
- A Caixa Preta – Versão Demo: De 30.10 a 20.12.2026. Sexta e sábado às 20h, domingo às 18h. Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia) pela Sympla
- Café Capô: Sextas e sábados das 18h30 à 1h30; Domingos das 16h30 às 23h30
