A inserção e o aperfeiçoamento profissional de mulheres nos bastidores e na criação das artes visuais ganham impulso com duas oficinas gratuitas de capacitação técnica e artística no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro (CCBB RJ), integradas à exposição Amazônicas: Poéticas Femininas.
As atividades formativas ocorrem ao longo do mês de outubro e são exclusivas para o público feminino, mediante autodeclaração. O cronograma divide-se entre a gestão prática de mostras e a experimentação corporal: nos dias 1 e 2 de outubro de 2026, a produtora cultural e gerente de produção do Museu de Arte do Rio (MAR), Stella Paiva, comanda a oficina Produção Executiva para Exposições de Artes Visuais. No fim do mês, nos dias 29 e 30 de outubro de 2026, a artista paraense Cristiane Martins conduz o encontro Criação de Projetos de Performance.
As interessadas em participar das formações devem realizar a inscrição gratuita por meio do formulário disponibilizado na bio do Instagram do Museu das Mulheres (@museudasmulheres) ou diretamente pelo endereço bb.com.br/cultura.
Essas oficinas de economia criativa foram pensadas para o avanço das mulheres, ampliando a formação técnica e artística de quem está começando ou querendo começar uma carreira profissional no universo artístico e atuar em grandes projetos. Também oferecemos ao público infanto-juvenil atividades com esculturas sonoras inspiradas na natureza amazônica que podem ser tocadas e ouvidas, almejando outras formas sensíveis de conscientização ambiental por meio da arte com a Amazônia brasileira em suas mãos
A diretriz é explicada por Sissa Aneleh, curadora e diretora artística da exposição Amazônicas: poéticas femininas, que destaca o papel da iniciativa na estruturação de carreiras dentro da economia criativa e na aproximação do público com temáticas ambientais.

Dos bastidores do orçamento à montagem de uma exposição real
A primeira formação, voltada à Produção Executiva para Exposições de Artes Visuais, disseca em dois encontros os processos de concepção, planejamento, execução e finalização de projetos expositivos. Com abordagem teórico-prática baseada em estudos de caso, simulações e exercícios aplicados, o curso trabalha a leitura de projeto curatorial, definição de escopo, elaboração de cronograma e orçamento, contratação de serviços, logística de obras, conservação, seguro, montagem expográfica e gestão operacional.
Além de apresentar a história e os conceitos da produção cultural, o treinamento foca na organização de fluxos de trabalho e na resolução de demandas técnicas recorrentes. Na etapa prática, as participantes elaboram seus próprios checklists operacionais e realizam uma visita técnica guiada para exercitar a visão de produção sobre uma mostra em cartaz.
Responsável pelas aulas, Stella Paiva atua há 24 anos na produção cultural — com passagens iniciais por longas-metragens e espetáculos teatrais — e ocupa há 14 anos a gerência de Produção do MAR. Na instituição carioca, esteve à frente de mais de 100 mostras, incluindo Nossa Vida Bantu, FUNK: um grito de ousadia e liberdade (realizada no Rio de Janeiro e em Lille, na França), Brígida Baltar: Pontuações, Bloco do Prazer, Ònà Irin: caminho de ferro (de Nádia Taquary), Um defeito de cor, Gira: Jarbas Lopes, Rosana Paulino: a costura da memória, Crônicas Cariocas, Yorubaiano: Ayrson Heráclito, Casa Carioca, O Rio do Samba: Resistência e reinvenção, Dja Guata Porã: o Rio de Janeiro Indígena, Do Valongo à Favela e Quem não luta tá morto: Arte Democracia Utopia.
Entre 2023 e 2026, sua trajetória expandiu-se para a produção de Um defeito de cor e Ònà Irin no Muncab, em Salvador; Sébastien Sisson na Biblioteca Nacional; Bloco do Prazer no Dragão do MAR, em Fortaleza; Peito de Aço, do artista Froiid, no Centro Cultural da Usiminas; e Cidade Batucada na galeria do Palácio Gustavo Capanema. Graduada em Comunicação Social pela PUC Minas e com MBA em Gestão Cultural pela Universidade Cândido Mendes, ela leciona desde 2020 na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, integra o corpo docente do MBA em Gestão e Produção Cultural da ABGC e coordenou no Rio o Programa de Formação de jovens em Práticas de Artes Cênicas (PTAC).

Arqueologia feminina e memória familiar na criação performática
No fim de outubro, a oficina Cirandas Matriarcais: Arqueologia do Feminino Ancestral e Familiar-Afetivo propõe o desenvolvimento de projetos de performance conectando a presença ancestral feminina, artefatos arqueológicos com representações de corpos de mulheres e objetos biográficos ligados às matriarcas das famílias das alunas. A metodologia resgata gestos e saberes manuais transmitidos entre gerações para articular corpo, memória e objeto.
O laboratório criativo estrutura-se em três eixos: uma aula expositiva teórica sobre arqueologia e corpos femininos ancestrais; uma etapa de experimentação artística que analisa as esculturas As Revoltosas como estudo de caso de design decolonial, unindo ciência e arte manual; e uma vivência prática na qual cada participante utiliza um objeto biográfico familiar como gatilho para estruturar uma proposta performática, podendo cruzar linguagens como cordel, texto poético, bordado, fotografia, música e desenho.
A ministrante Cristiane Martins investiga e recria símbolos, formas e imaginários das culturas arqueológicas da Amazônia, cruzando ancestralidade e arte contemporânea. Sua produção abrange máscaras, esculturas e adornos corporais confeccionados com madeira, porcelana fria, urucum, folhas de ouro e fibras naturais, ativando o corpo como território de ritual, memória e pertencimento.

Panorama histórico e imersão digital na arte do Norte
As duas oficinas fazem parte das ações educativas da exposição Amazônicas: poéticas femininas, idealizada pelo Museu das Mulheres (Museu DAS) e em exibição até 16 de novembro de 2026 em todas as salas do segundo andar do CCBB RJ, após circular por Belém, Fortaleza e Brasília. Aprovada na Seleção Petrobras Cultural, a mostra tem patrocínio exclusivo da Petrobras via Lei Rouanet, realização do Ministério da Cultura e apoio do CCBB, inserindo-se no Programa Petrobras Cultural, que tem a brasilidade como eixo central.
O percurso expositivo reúne 80 obras que traçam um panorama da produção de mulheres da região amazônica desde a década de 1970 até a atualidade, distribuídas em pintura, escultura, fotografia, gravura, objeto, arte digital e videoarte. Participam 21 artistas contemporâneas do Norte do Brasil: Auá Mendes, Bárbara Savannah, Cristiane Martins, Diná Oliveira, Elaine Arruda, Elieni Tenório, Keila-Sankofa, Lise Lobato, Lúcia Gomes, Maria Auxiliadora Zuazo, Nina Matos, Rafa Bqueer, Rafaela Kennedy, Rafaela Moreira, Renata Aguiar, Rita Huni Kuin, Rita Loureiro, Sanchris, Val Sampaio, Wɨra Tini e Yaka Huni Kuin.
Organizada nos núcleos Materialidades Ancestrais, Gravura Feminina, Amazônia Pictórica e Performáticas, a seleção discute gênero, regionalismo, identidade nacional e diversidade. Segundo Sissa Aneleh, a concepção temática e histórica evidencia estilos e narrativas que englobam artivismo, o corpo como suporte, culturas amazônica-indígena-afrobrasileira, pré-história e tecnologias originárias, arte do afeto e biografias femininas.
A experiência expande-se para o ambiente virtual no Espaço Petrobras Amazônicas, sala imersiva no metaverso que utiliza realidade aumentada e óculos 3D para exibir um filme em realidade virtual do acervo do Museu das Mulheres. O público também pode interagir com a videoarte coletiva Mensagem para a Amazônia, construída ao longo da itinerância com depoimentos dos visitantes sobre preservação ambiental. A mostra dispõe de obras táteis, audiodescrição e intérprete de Libras, além de programação com visitas guiadas pela curadora, palestras com artistas e lançamento de catálogo.

A atuação das instituições realizadoras
À frente da curadoria, Sissa Aneleh é mestra e doutora em Artes, historiadora da arte e fundadora do Museu das Mulheres. Com mais de 15 anos de carreira e passagens por projetos na Caixa Cultural, Fundo de Apoio à Cultura do DF e Goethe Institut, assinou mais de 17 curadorias, incluindo duas circulações internacionais na Alemanha (Museu de Arte de Bochum, Centro de Cultura de Manheim, Bienal de Arte de Bochum e Festival de Berlim) e a mostra Vetores-Vertentes: Fotógrafas do Pará nas unidades do CCBB entre 2025 e 2026.
Sediado em Brasília, o Museu das Mulheres é a primeira instituição museológica brasileira dedicada exclusivamente à produção artística, cultural e histórica feminina, operando em espaços físicos e em ambientes de Realidade Expandida (XR), Realidade Aumentada (RA), Realidade Virtual (RV) e Metaverso, além de manter editora própria e área de pesquisa. Já o CCBB RJ, inaugurado em 12 de outubro de 1989 em edifício projetado pelo arquiteto Francisco Joaquim Bethencourt da Silva, soma 35 anos de atuação na revitalização do centro histórico carioca e na difusão de artes visuais, cênicas, cinema, música e debates.

Serviço
- Oficina de Produção Executiva para Exposições de Artes Visuais (Ministrante: Stella Paiva): 01 e 02 de outubro de 2026, das 14h às 17h (carga horária de 6h). Local: CCBB Rio de Janeiro (Auditório – 3º andar). Vagas: 100.
- Oficina de Criação de Projetos de Performance – Cirandas Matriarcais: Arqueologia do Feminino Ancestral e Familiar-Afetivo (Ministrante: Cristiane Martins): 29 e 30 de outubro de 2026, das 15h às 18h (carga horária de 6h). Local: CCBB Rio de Janeiro (3º andar). Vagas: 30.
- Público-alvo das oficinas: Mulheres (mediante autodeclaração), artistas visuais, estudantes de arte, pesquisadoras, produtoras culturais e interessadas em arte contemporânea, performance e estudos decoloniais.
- Inscrições e informações das oficinas: Gratuitas, via formulário na bio do Instagram @museudasmulheres, no site www.museudasmulheres.com.br ou em bb.com.br/cultura. E-mail: producaoamazonicas@gmail.com.
- Exposição Amazônicas: Poéticas Femininas: Até 16 de novembro de 2026. Visitação de quarta a segunda, das 9h às 20h (fecha às terças). Classificação indicativa: Livre.
- Horário de acessibilidade: Domingos, das 8h às 9h, atendimento exclusivo para visitação de pessoas com deficiências intelectuais e/ou mentais e seus acompanhantes (Lei Municipal nº 6.278/2017).
- Endereço: CCBB Rio de Janeiro – Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro (RJ). Contato: (21) 3808-2020 | ccbbrio@bb.com.br.
- Ingressos da exposição: Entrada gratuita, retirados em bb.com.br/cultura ou na bilheteria do CCBB. Redes sociais: facebook.com/ccbb.rj | instagram.com/ccbbrj | tiktok.com/@ccbbcultura.


