A reestreia de Galileu estabelece uma ponte direta entre a perseguição à ciência no século XVII e os dilemas sanitários e sociais vivenciados na contemporaneidade.
A busca obstinada pela racionalidade científica ganha contornos de urgência na montagem idealizada pela Cia. Manga com Leite. A peça, que ocupa o palco do Espaço Parlapatões a partir de 7 de outubro, utiliza como base a dramaturgia de Bertolt Brecht para discutir o choque entre a busca pelo conhecimento e os interesses políticos e religiosos. Em um recorte contemporâneo, o espetáculo reflete sobre a atemporalidade das recessões mundiais e a frágil fronteira entre o altruísmo e a martirização.
Trabalhar Galileu que é um personagem dúbio e dialético é trabalhar com a essência humana que é igualmente dúbia e dialética.

O confronto entre a observação dos astros e o dogma
Adaptada do texto A Vida de Galileu, com tradução de Roberto Schwarz e adaptação de Carol Soares, a narrativa resgata os momentos decisivos em que o matemático, astrônomo e físico italiano aperfeiçoou o telescópio em 1609. Ao aprofundar os estudos sobre a teoria heliocêntrica de Copérnico, sustentando que o Sol é o centro do Universo, Galileu passa a enfrentar a oposição da Igreja Católica, personificada no palco pelas figuras da Corte e da Inquisição.
As grandes descobertas do cientista ocorreram em meio à severa epidemia de peste bubônica que assolou Florença entre os anos de 1630 e 1633. É justamente esse momento turbulento que serve de espelho para os anos da pandemia de Covid-19. O embate entre a negação e a clareza da razão atravessa a cena, expondo como o ato de pensar continua sendo uma das experiências mais instigantes e desafiadoras da existência humana.

Três atores conduzem a dinâmica de um universo em colapso
Sob a encenação assinada por Alan Paes, a montagem adota uma linguagem minimalista e performática. O elenco formado por Bela Fausferr, Carol Soares e Vinny Guimarães se desdobra em múltiplos papéis, mantendo o ritmo acelerado com poucas pausas na fala e trocas constantes de personagens. A proposta contrapõe essa velocidade a momentos de imobilidade e valorização do silêncio no palco.
A cenografia concentra as interações em uma mesa central que se transforma ao longo da apresentação. Os elementos acadêmicos presentes no primeiro ato dão lugar gradualmente à estética do teatro pobre. A atmosfera é complementada pelo desenho de luz de Jaque Nunes, operado por Dayane Santoso, pelas projeções criadas por Raquel Diógenes e Bela Fausferr, além da sonoplastia desenvolvida pela direção.
Serviço
- Espetáculo: GALILEU
- Temporada: De 7 de outubro a 28 de outubro, às quartas-feiras, às 20h
- Local: Espaço Parlapatões
- Endereço: Praça Franklin Roosevelt, 158 – Consolação, São Paulo – SP
- Duração: 90 minutos
- Classificação etária: 10 anos
- Capacidade: 96 lugares
- Ingressos: R$ 80 (inteira), R$ 40 (meia-entrada) e R$ 60 (solidário + 1KG de alimento não perecível)
Leia também
- Jovens do Rio encenam dilema de Brecht sobre vida e coletividade
- Galileu encara perseguição religiosa e peste em peça nos Parlapatões
