Em um país onde a maioria da população vive em áreas urbanas, pensar a cidade a partir das crianças ainda é uma exceção. É justamente esse olhar que guia o livro Cidades que Abraçam Infâncias, da jornalista Regina Cintra, que chega às livrarias em junho pela Editora Dialética, também em versões ebook e audiobook.
A obra parte de uma pergunta direta: como cidades que ignoram os ritmos e necessidades das crianças impactam a vida de todos ao redor? A resposta se constrói ao longo de entrevistas, dados e exemplos concretos que revelam um cenário urbano frequentemente hostil — mas também repleto de possibilidades de transformação.
Quando a cidade exclui desde o começo
Bebês e crianças não circulam sozinhos. Dependem de adultos — geralmente mulheres — que enfrentam diariamente calçadas precárias, travessias inseguras e ausência de infraestrutura básica, como bancos ou abrigos em pontos de transporte. Esses elementos, muitas vezes ignorados no planejamento urbano, moldam diretamente a experiência de viver na cidade.
O modelo rodoviarista, predominante há décadas, intensifica esse cenário. Ruas pensadas para carros, tempos semafóricos insuficientes para pedestres e a falta de espaços de convivência criam um ambiente pouco acolhedor, especialmente para quem está nos primeiros anos de vida.
Essa fase, aliás, é decisiva. É quando o cérebro apresenta maior plasticidade e capacidade de formação de conexões. Experiências positivas fortalecem o desenvolvimento, enquanto situações de estresse ou privação podem comprometer essa estrutura. E muitas dessas experiências acontecem justamente no território onde a criança vive.
Quatro cidades, diferentes realidades
Para entender o que já está sendo feito, Regina Cintra foi a campo e analisou quatro cidades com perfis distintos: Jundiaí, no interior de São Paulo; Recife, capital pernambucana; Boa Vista, em Roraima; e Medellín, na Colômbia.
As escolhas revelam contrastes importantes. Jundiaí apresenta alto IDH e recursos mais robustos. Recife enfrenta desafios ligados à desigualdade social e à geografia urbana. Boa Vista se consolidou como referência nacional na pauta da primeira infância. Já Medellín se tornou um caso internacional de transformação urbana contínua, construída ao longo de diferentes gestões.
Apesar das diferenças, o livro identifica pontos em comum entre essas experiências, especialmente no papel estratégico das políticas públicas integradas e na articulação com organizações da sociedade civil.
Experiências que mostram caminhos possíveis
Ao longo de oito entrevistas, o livro reúne vozes diretamente envolvidas com o tema. Entre elas estão gestores públicos como Teresa Surita, Luciana Lima, Murilo Cavalcanti e Marcelo Peroni, além de especialistas como Claudia Vidigal, Rodrigo Mindlin Loeb, Vital Didonet e Santiago Uribe.
As conversas ajudam a traduzir conceitos complexos em exemplos concretos. A proposta da autora é justamente afastar o excesso de linguagem técnica e tornar o conteúdo acessível para quem não é especialista em urbanismo ou desenvolvimento infantil.
O resultado é um panorama que combina análise, prática e inspiração. A conclusão é direta: existem soluções viáveis, muitas delas de baixo e médio custo, capazes de transformar a experiência urbana em um curto espaço de tempo.
“Não é suficiente oferecer serviços se o chegar é tão exaustivo à parte da população. A gestão tem que atuar para remover obstáculos, facilitar o dia a dia, proporcionar efetivamente o acesso.”
Mais do que infraestrutura, uma mudança de lógica
O livro também reforça que a transformação das cidades não depende apenas de grandes obras. A integração entre equipamentos públicos, a proximidade entre serviços e o cuidado com o entorno imediato podem ser decisivos para garantir direitos básicos.
Em um país onde 87% da população vive em áreas urbanas, pensar a cidade a partir da infância significa, na prática, melhorar a qualidade de vida coletiva. Afinal, espaços mais seguros, acessíveis e acolhedores beneficiam não apenas crianças, mas toda a população.
Ao reunir dados, experiências e relatos, Cidades que Abraçam Infâncias propõe uma reflexão urgente — e, ao mesmo tempo, apresenta caminhos concretos para tornar essa mudança possível.
Serviço
- Cidades que Abraçam Infâncias – O que é possível aprender com territórios que incluíram crianças em seus planejamentos urbanos
- Autora: Regina Cintra
- Ilustrações: Erika Teixeira
- Editora: Dialética / 2026
- Número de páginas: 220
- Vendas online: https://loja.editoradialetica.com/humanidades/cidades-que-abracam-infancias-o-que-e-possivel-aprender-com-territorios-que-incluiram-criancas-em-seus-planejamentos-urbanos








Gostou do nosso conteúdo?
Seu apoio faz toda a diferença para continuarmos produzindo material de qualidade! Se você apreciou o post, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos. Sua ajuda é fundamental para que possamos seguir em frente! 😊