No Mercadão de Coqueiros, mães trabalham lado a lado com os filhos e mostram que empreender em família exige mais do que afeto — exige reinvenção diária.
Entre flores que chegam cedo e prateleiras cheias de cor, duas famílias do Mercadão de Coqueiros, na região continental de Florianópolis, revelam como a maternidade muda de forma quando entra no expediente. Não é só sobre dividir o balcão. É sobre aprender a separar papéis que, fora dali, sempre se misturaram.
Quando a mãe precisa ser chefe
Sheila Valmira de Souza Hames é florista, microempresária e mãe de três filhos. Dois deles, Kaique e Henrique, trabalham com ela na floricultura da família. O terceiro segue outro caminho, numa mecânica. No dia a dia do negócio, o maior desafio que ela enfrenta não tem nada a ver com flores.
“No trabalho eu preciso ser profissional e não mãe, e isso é o mais difícil. Às vezes quero dar carinho quando fui firme demais ou quando eles erram, mas ali não é o momento. E em casa ainda precisamos conversar sobre o que não saiu bem no dia. Mesmo assim, tudo vale a pena quando um cliente elogia a educação e a postura deles. Aí eu vejo que o esforço faz sentido”, conta Sheila.
Foi observando a postura dos filhos no atendimento que ela percebeu que eles tinham se tornado profissionais de verdade. Os elogios dos clientes à educação e à atenção de Kaique e Henrique funcionam como uma confirmação silenciosa de que o caminho foi certo. E há outro sinal que ela não esperava.
Às vezes eles até me dão um toque: mãe, tu fez errado. E eu, como mãe, às vezes acho que eles são pequenos ainda. Aí vejo eles atendendo, conversando com cliente ou fornecedor, e percebo que cresceram bastante.
O aprendizado que vem dos dois lados
Kaique Richard Hames tem 21 anos, cursa Ciência da Computação e trabalha com flores como quem aprende um idioma novo a cada dia. Para ele, separar os papéis no começo foi difícil. Com o tempo, a rotina criou uma sintonia própria.
“Na floricultura, não vendemos apenas plantas, vendemos sentimentos e momentos especiais. Ela me ensinou que, mesmo quando estou cansado, o padrão de qualidade não pode cair”, destaca Kaique. A parceria, segundo ele, funciona porque ambos já sabem o que o outro precisa fazer — e isso foi construído na prática, resolvendo problemas conforme apareciam.
O irmão mais novo, Henrique Richard Hames, de 19 anos, também estuda — Análise e Desenvolvimento de Sistemas — e divide com a mãe não só o trabalho, mas a descoberta de um lado dela que nunca tinha visto em casa.
“Em casa eu sempre vi o lado mais carinhoso e protetor, e no trabalho conheci um lado mais profissional, exigente e focado. E mesmo com opiniões diferentes às vezes, conseguimos nos organizar e resolver as coisas juntos. Isso mostrou que, além de mãe e filho, somos parceiros no trabalho”, afirma Henrique.
Um sonho que saiu do papel em dois meses
A poucos passos da floricultura, entre canetas coloridas e objetos de papelaria, outra história familiar toma forma. Eva Fátima de Souza abriu um negócio com o filho Lucas sem que isso parecesse um salto no escuro. Para ela, foi mais uma etapa de uma parceria que já existia antes.
“Como sempre houve muita parceria ao longo da vida, foi mais um projeto que desenvolvemos juntos do que um desafio. E essa confiança começou cedo, desde o momento em que ele abriu o próprio escritório de design e iniciou a carreira profissional como designer”, conta Eva.
O que mais a surpreendeu foi a velocidade com que tudo aconteceu. A loja foi do sonho à realidade em menos de dois meses, conduzida com precisão pelo filho. Hoje, Eva cuida do atendimento e da curadoria dos produtos. Lucas, designer gráfico e jogador de poker aos 34 anos, responde pela parte administrativa e financeira.
Trabalhar juntos como extensão da vida
Para Lucas, a dinâmica com a mãe é quase uma continuação natural do que sempre viveram. Não há uma relação de chefia definida entre eles — o que existe é reconhecimento mútuo.
“Como sempre nos ajudamos muito, é natural. O melhor dessa relação é saber que estamos trabalhando em algo que já foi um sonho para ela”, diz.
Acompanhar a mãe no dia a dia do negócio trouxe ao filho uma perspectiva que vai além dos resultados. “Acompanhar a dedicação, cuidado, carinho e empenho em cada etapa nesse projeto que saiu do papel em dois meses, e ver como tudo está funcionando bem é muito significativo”, completa Lucas.
Essas duas histórias, entre tantas que existem no Mercadão de Coqueiros, mostram que trabalhar em família é um exercício diário de confiança, respeito e reinvenção. Mães e filhos que seguem construindo negócios e relações que crescem juntas — como tudo que é cuidado com afeto.
Serviço
- Local: Mercadão de Coqueiros — Florianópolis, SC (região continental)
- Data especial: Dia das Mães — 10 de maio

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