No coração de São Paulo, obras de 40 artistas globais desafiam o controle corporativo da cultura — e podem ser copiadas por qualquer pessoa, de graça.
Antes de virar sinônimo de piada viral, a palavra “meme” foi cunhada pelo biólogo Richard Dawkins para descrever unidades culturais que se replicam e se espalham de pessoa a pessoa — ideias projetadas para circular sem barreiras. É exatamente nessa acepção original que o projeto The Memes by 6529 opera. E é esse universo que chega agora, em formato físico, ao espaço Domínio Público, em São Paulo.
A exposição “6529 Memes” marca a segunda temporada curatorial do espaço, com obras de mais de 40 artistas de diversos países, todas produzidas entre 2022 e 2026 e licenciadas em Creative Commons Zero (CC0). Isso significa que qualquer visitante pode fotografar, baixar, reproduzir, reimaginar e até usar comercialmente qualquer peça exposta — sem pedir permissão, sem pagar royalties, sem restrição alguma.
Memes como manifesto
O projeto The Memes by 6529 não é entretenimento descartável. Ele utiliza a linguagem memética para difundir os valores do movimento cypherpunk: liberdade de transação, resistência à censura, soberania individual e um metaverso aberto, não subordinado a plataformas corporativas. São pinturas digitais, animações, vídeos, peças de design com referências históricas e obras híbridas que tocam em questões urgentes — com o humor e a irreverência que só a cultura dos memes consegue combinar.
A curadoria de Hugo Faz, fundador da Casa NUA, organiza a mostra em três eixos: “Tomar os Memes de Produção”, sobre a retomada dos meios de criação cultural pelo indivíduo; “Freedom to Transact”, sobre a liberdade de transação digital como direito fundamental; e “OM – Open Metaverse”, sobre um futuro digital aberto e sem muros corporativos.
“A razão de existir da Domínio Público é enfrentar a concentração de poder nas indústrias criativas. Ao tirar o controle das mãos de intermediários e abrir completamente o acesso às obras, a gente propõe uma mudança radical na relação entre criação, propriedade e circulação. Criar a Domínio Público é bancar a briga para garantir um cenário no qual a gente não fique refém de sistemas arcaicos ou das grandes corporações.”
— Hugo Faz, idealizador e curador da Domínio Público e da Casa NUA
Um espaço que nasceu do blockchain
Nada no projeto Domínio Público foi convencional — nem mesmo o financiamento. Toda a infraestrutura, da instalação das 27 telas estado-da-arte à operação cotidiana, foi viabilizada exclusivamente por captação descentralizada via blockchain, sem patrocínio corporativo ou verba pública. A campanha teve duas frentes: a venda das obras comissionadas na primeira temporada e a emissão de um NFT-manifesto colaborativo criado pelos artistas Cebolander (São Paulo), Eric Pan (Taiwan/Berlim) e Hugo Faz (São Paulo).
Em tiragem limitada, as 257 cópias do NFT foram vendidas em 24 horas — e foi exatamente essa venda que financiou a instalação da galeria. O NFT funciona também como instrumento de governança: quem o possui pode votar em propostas curatoriais para o espaço na plataforma 6529.io.
O lugar onde tudo acontece
O espaço em si já carrega história. A Galeria Formosa foi um sonho modernista projetado por Mário de Andrade no subsolo do Viaduto do Chá, em frente ao Theatro Municipal de São Paulo. Depois de décadas de ocupações culturais diversas — e de um longo período de abandono na virada do século — o local foi restaurado em 2025 pela Formosa Hi-Fi, criada por Facundo Guerra, Alê Youssef e Ale Natacci, como um templo acústico dedicado ao vinil. É nesse mesmo subsolo que Elis Regina ensaiou “Falso Brilhante” em 1975.
A chegada da Domínio Público ao espaço fecha um arco improvável: um projeto de arte nascido no blockchain, exibido num lugar com projeto acústico da mesma empresa responsável pela Sala São Paulo e pelo Lincoln Center. Passado, presente e futuro dividindo o mesmo corredor subterrâneo.
A maior mostra de arte digital originalmente digital do Brasil
Com 27 telas de última geração — incluindo painéis de mais de dois metros com resolução 8K —, a Domínio Público se consolidou como a maior exposição de arte originalmente digital do Brasil. Não é preciso entender de criptomoedas ou de blockchain para se deixar afetar pelas obras. Elas falam de uma inquietação que qualquer pessoa reconhece: a de viver num mundo cada vez mais mediado por plataformas e sistemas que não controlamos.
Num país em que “meme” costuma evocar apenas o entretenimento fugaz das redes sociais, a exposição “6529 Memes” convida o visitante a descobrir que um meme pode ser, também, um ato político, uma obra de arte de alto valor e um instrumento de transformação social.
Serviço
- Exposição: Domínio Público — Temporada curatorial “6529 Memes”
- Até: 29 de maio de 2026
- Funcionamento: De quarta-feira a sábado, das 10h às 17h (fechado excepcionalmente nos dias 30 de abril e 7 de maio)
- Local: Formosa Hi-Fi — subsolo do Viaduto do Chá, entrada pela escadaria em frente ao Shopping Light, Centro Histórico de São Paulo – SP
- Entrada: Gratuita
- Ingressos: dominiopublico.nua.casa | https://luma.com/qcu3ix04
- Visita Guiada: 29 de maio, às 15h — https://luma.com/b0hct8r9
- Site Formosa Hi-Fi: formosahifi.com | Instagram: @formosahifi
- Casa NUA: nua.casa | Instagram: @nua.casa
- Hugo Faz: hugofaz.art | Instagram: @hugofaz




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