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Peça projeta 2040 para expor fissuras da classe média atual

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Um condomínio de luxo em 2040 revela um país cercado por medo, consumo e contradições, onde o futuro apenas amplia tensões já visíveis no presente.

O espetáculo “Gente de Classe”, do Grupo Carmin, estreia no Teatro Firjan Sesi Centro em 23 de julho e propõe uma sátira direta à classe média brasileira. Ambientada no condomínio Nova Canaã, a trama acompanha uma mãe solo e seus filhos em um ambiente protegido por segurança privada, onde conforto e instabilidade convivem sob vigilância constante.

Não é uma ficção científica clássica, mas uma crítica do presente a partir de um futuro possível

A direção é de Quitéria Kelly, que também assina a dramaturgia inspirada nas leituras do sociólogo Jessé Souza. A peça constrói um retrato da classe média urbana, escolarizada e atravessada por contradições entre discurso progressista e práticas conservadoras. Em cena, personagens femininas conduzem o conflito, entre elas uma inteligência artificial doméstica e uma ativista que tensiona os limites entre o espaço privado e o coletivo.

Um futuro que ecoa o presente

A encenação aposta em uma estética controlada e artificial. O cenário minimalista e modular cria uma atmosfera limpa, quase asséptica, onde tudo parece calculado. A referência, segundo a direção, se aproxima de um feed de rede social: organizado, performático e permanentemente editado.

Essa construção visual se amplia com o uso de projeções mapeadas, que introduzem uma lógica de gamificação nas relações. Números, rankings e recompensas atravessam a experiência dos personagens, enquanto a trilha sonora, influenciada por beats eletrônicos e trap music com pesquisa de Ian Medeiros, conduz a narrativa entre tensão e ironia.

Fé, consumo e poder em disputa

O nome do condomínio, Nova Canaã, sintetiza uma das camadas centrais da obra: a relação entre religião, política e manutenção de privilégios. Segundo a direção, o discurso evangélico aparece como ferramenta simbólica dentro de uma estrutura social que articula fé, consumo e conservadorismo.

A peça também destaca o protagonismo feminino como motor de transformação. A narrativa sugere que a próxima ruptura social pode surgir justamente dessas vozes, em confronto direto com estruturas estabelecidas.

Trajetória e retomada

Criado em 2007 em Natal (RN), o Grupo Carmin desenvolve dramaturgias originais com foco em temas urbanos, memória e história. No repertório, trabalhos como “Jacy” e “A Invenção do Nordeste” consolidaram o grupo no circuito nacional.

“Gente de Classe” foi concebida antes da pandemia e retomada em 2024. A reestreia confirma a permanência dos temas abordados. Mesmo em um novo cenário político, as tensões sociais seguem ativas e visíveis.

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