Uma figura central da moda do século XX reaparece sob outra lente: menos glamour, mais fratura. O novo livro de Marianne Vic investiga o homem por trás do mito Yves Saint Laurent.
O que ainda resta dizer sobre Yves Saint Laurent? Para Marianne Vic, sobrinha do estilista, a resposta está justamente no que foi silenciado. Em “O príncipe da Babilônia”, lançado pela Estação Liberdade, a autora desloca o foco da consagração pública para os bastidores íntimos de uma trajetória marcada por contrastes.
A narrativa retorna à infância na Argélia francesa, onde o futuro criador surge como um menino atravessado por negligência e violência. É nesse ambiente que se formam as tensões que acompanhariam toda a sua vida: o desejo de reconhecimento, a fragilidade emocional e uma relação persistente com a autodestruição.
Entre o mito e a verdade, emerge um homem moldado por traumas, genialidade e um permanente conflito consigo mesmo.
Ao longo do livro, Vic constrói um retrato que alterna glória e desolação. A ascensão meteórica na alta-costura convive com episódios de excesso, crises e dependências. A riqueza e a fama aparecem como paliativos, nunca como resolução. O estilista que redefiniu silhuetas e códigos de elegância também travava batalhas íntimas constantes.
A casa da rue de Babylone como palco
Parte da força do relato está no acesso direto aos ambientes privados do estilista. Testemunha próxima, Vic percorre os espaços da icônica residência parisiense da rue de Babylone, onde arte, excessos e relações turbulentas se cruzavam. É ali que o livro ganha densidade, revelando episódios que tensionam a imagem pública construída ao longo das décadas.
A relação com Pierre Bergé, parceiro e figura central na estrutura do império criativo, também atravessa a narrativa. Entre afeto, dependência e poder, o vínculo ajuda a compreender os mecanismos que sustentaram — e também pressionaram — a trajetória de Saint Laurent.
Entre a genialidade e a queda
“O príncipe da Babilônia” não desmonta o legado de Yves Saint Laurent, mas o reposiciona. A genialidade permanece evidente, assim como o impacto duradouro na moda. O que muda é o enquadramento: o estilista deixa de ser apenas símbolo de sofisticação para se tornar personagem de uma história atravessada por dor, excessos e contradições.
Mais do que uma biografia tradicional, o livro propõe um mergulho psicológico e afetivo. Ao expor fragilidades e zonas de sombra, Marianne Vic recalibra a narrativa em torno de um dos nomes mais influentes da alta-costura, sem reduzir sua complexidade a uma versão confortável.
Nascida em Paris em 1965, a autora cresceu imersa no universo da moda e já havia explorado temas familiares em obras anteriores. Em abril de 2023, recebeu o prêmio literário francês Pampelonne Ramatuelle por este livro, que agora amplia o debate sobre o legado de Saint Laurent a partir de dentro.

