O Marrocos entra em campo como o primeiro adversário do Brasil na Copa do Mundo de 2026, mas a relevância do país vai muito além do futebol. Embalado por uma seleção forte e por nomes conhecidos como Hakimi e Brahim Díaz, o território do norte da África também chama atenção por uma herança cultural e histórica que atravessa séculos — e que deve ganhar ainda mais visibilidade com a Copa de 2030, da qual será um dos países-sede.
Essa combinação entre tradição, modernidade e projeção internacional coloca o Marrocos em uma posição singular no cenário global. O que se vê dentro de campo é, em muitos aspectos, reflexo de uma formação cultural construída ao longo de milênios, marcada por trocas entre o mundo islâmico, raízes africanas e influências europeias.
“O que vemos hoje em campo, com uma seleção vibrante, é apenas o reflexo de um país que aprendeu, ao longo de milênios, a ser uma ponte estratégica entre a tradição islâmica, a raiz africana e a vanguarda europeia”.
A avaliação é de Juliano Costa, licenciado em História, mestre em Educação e diretor de Produtos e Marketing da Aprende Brasil Educação, que destaca o Marrocos como um dos exemplos mais consistentes de sofisticação cultural no continente africano.
Berço da universidade moderna
Entre os símbolos mais marcantes dessa trajetória está a Universidade de Al Quaraouiyine, localizada na cidade de Fez. Fundada em 859 d.C., a instituição é reconhecida pelo Guinness World Records e pela UNESCO como a universidade mais antiga do mundo ainda em funcionamento.
O dado impressiona ainda mais ao considerar sua origem: a universidade foi financiada por Fatima al-Fihri, uma mulher proprietária de terras na região onde hoje está a Mesquita dos Andalusinos. O espaço cresceu ao longo dos séculos e se consolidou como um dos principais centros intelectuais da chamada Era de Ouro Islâmica.
Além do ensino, o complexo abriga a biblioteca mais antiga do mundo ainda em atividade. O acervo inclui manuscritos raros, entre eles um Alcorão datado do século IX, reforçando o papel do país como um dos polos históricos do conhecimento.
“Isso coloca o país não apenas como um destino turístico, mas como o berço da universidade moderna”, afirma Costa, ao destacar a relevância histórica da instituição.
Inspiração para a alta costura
A influência do Marrocos também atravessa fronteiras criativas e chega à moda. Um dos maiores estilistas da história, Yves Saint Laurent, encontrou no país uma fonte constante de inspiração. Sua relação com o território começou em 1966, durante uma visita a Marraquexe.
Segundo o estilista, foi ali que ele passou a enxergar a cor de forma diferente. A experiência o levou a abandonar tons mais sóbrios e a incorporar paletas vibrantes, influenciadas pela luz, pelos tecidos e pela cultura local.
Em 1980, ao lado de Pierre Bergé, Saint Laurent adquiriu o Jardim Majorelle, que se transformou na residência do casal, conhecida posteriormente como Villa Oasis. O espaço hoje abriga o Museu Berbere e a Maison des Illustres, dedicada à memória do estilista.
O impacto dessa relação culminou na inauguração do Museu Yves Saint Laurent, em outubro de 2017, consolidando Marraquexe como um ponto de referência também no universo da moda internacional.
Um passado preservado no deserto
Muito antes de se tornar o cenário árido conhecido hoje, o Saara era uma região repleta de rios, savanas e biodiversidade. Esse passado distante deixou marcas profundas no território marroquino, transformando o país em um importante sítio paleontológico.
Ao longo de milhões de anos, fósseis de diferentes espécies foram preservados e, com a ação de movimentos tectônicos e da erosão, passaram a ser expostos na superfície. Atualmente, é possível encontrar e visitar oficinas que trabalham com fósseis de orthoceras, trilobitas e amonites, além de registros do período Paleozóico.
Essa dimensão geológica amplia ainda mais a complexidade cultural do país, que reúne em seu território camadas que vão do passado profundo da Terra até manifestações contemporâneas de arte e estilo.
“O Marrocos é um arquivo vivo da humanidade. Poucos lugares no mundo permitem que você explore, em uma mesma viagem, o passado geológico profundo dos fósseis do Saara e a alta costura em Marraquexe”.
Para Costa, essa capacidade de preservar diferentes momentos da história em um único território é o que torna o país tão singular — e tão relevante no cenário global atual.
Assim, enquanto o Brasil se prepara para enfrentar o Marrocos dentro de campo, o duelo também convida a um olhar mais amplo sobre um país que, há séculos, constrói sua relevância muito além do esporte.

