Se vestir nunca foi apenas uma escolha prática, mas o debate ganha outra dimensão quando 76% dos consumidores globais dizem considerar as roupas “muito importantes” para expressar a própria identidade. É nesse ponto que a reflexão de Cáren Cruz se impõe com força. Em “Quem Decide o Que é Elegante? Imagem, raça e poder na construção da aparência”, a autora investiga como ideias de sofisticação e adequação foram historicamente construídas e por que esses critérios, muitas vezes tratados como naturais, carregam filtros de poder, repertório e exclusão.
Moda como linguagem social
O ponto de partida da análise é direto: se a maioria das pessoas usa a roupa para comunicar quem é, então a aparência precisa ser entendida para além da superfície. No livro, Cáren Cruz afirma que a imagem não pode ser reduzida a gosto pessoal, tendência ou combinação estética. Ela propõe olhar para a aparência como uma linguagem social, atravessada por interpretações que mudam conforme o corpo, o contexto e o repertório de quem observa.
Essa perspectiva desloca o debate da pergunta mais comum — o que está na moda — para uma investigação mais profunda: como certos padrões se consolidaram como sinônimo de elegância. A autora usa sua bagagem técnica para examinar convenções que, ao longo do tempo, moldaram noções de refinamento e legitimidade. Ao fazer isso, expõe mecanismos invisíveis que sustentam essas leituras e mostra que a aparência também organiza hierarquias, valida presenças e delimita quem parece adequado em determinados espaços.
“O corpo funciona como contexto. E o olhar social atua como ponto de partida. A identidade se forma justamente nesse espaço de tensão entre aquilo que uma pessoa é e aquilo que o ambiente insiste em interpretar sobre ela”
A frase sintetiza o centro da argumentação. Para Cáren, a construção da imagem não se esgota no indivíduo porque sempre existe uma camada de leitura externa atuando sobre ele. Por isso, a discussão sobre elegância deixa de ser apenas um tema de estilo e passa a tocar em códigos culturais, disputas simbólicas e estruturas que orientam o modo como as pessoas são percebidas.
A imagem começa antes do guarda-roupa
Um dos deslocamentos mais relevantes propostos pela autora está na própria ideia de consultoria. Segundo Cáren Cruz, a consultoria identitária não começa no guarda-roupa, mas na leitura social. Isso significa reconhecer que a imagem é construída na relação entre presença, contexto e interpretação. Em vez de partir de uma lista de peças ideais ou de um modelo universal de bom gosto, a análise começa pela forma como essa pessoa é lida no mundo.
Nesse raciocínio, a autora chama atenção especialmente para os corpos racializados. Nesses casos, a imagem não representa apenas uma escolha estética, mas um campo político, simbólico e interpretativo. A roupa, a cor, a textura e o volume deixam de ser apenas elementos visuais e passam a acionar sentidos que não são neutros. O que parece detalhe pode carregar séculos de leitura social, distinção e enquadramento.
Perguntas que mudam a análise
Ao longo do livro, Cáren organiza essa reflexão a partir de perguntas que desmontam a falsa objetividade das avaliações estéticas. Em vez de aceitar a elegância como uma categoria pronta, ela propõe investigar quem interpreta a imagem, de onde vem esse olhar e quais referências sustentam essa leitura.
- Quem interpreta a imagem?
- A partir de qual repertório cultural?
- Quais significados sociais determinadas cores, texturas e volumes ativam?
- Como esses mesmos elementos são percebidos em diferentes corpos?
- Quais códigos de raça, classe e território influenciam essa leitura?
Essas perguntas ajudam a entender por que a consultoria identitária, na visão da autora, não se limita a orientar escolhas visuais. Ela também precisa considerar o campo social no qual essas escolhas circulam. O foco deixa de ser a busca por aprovação genérica e passa a ser a construção de uma presença coerente com a identidade da pessoa e com o ambiente em que ela se manifesta.
Os limites dos padrões universalizantes
Cáren Cruz também coloca no centro da discussão a diversidade fenotípica brasileira. Para ela, qualquer tentativa de transformar padrões estéticos específicos em regra universal ignora a complexidade de um país marcado por processos históricos de miscigenação e formação cultural. Essa diversidade, segundo a autora, não é apenas uma característica demográfica. Ela altera de forma concreta a maneira como cores, contrastes e composições visuais operam em diferentes peles e corpos.
“Nas peles negras, por exemplo, existem inúmeras variações de subtons quentes, frios e neutros, além de camadas pigmentares que respondem de maneira distinta à incidência de determinadas cores”
Ao destacar esse ponto, a autora evidencia o quanto fórmulas prontas podem falhar quando tentam simplificar realidades complexas. A crítica não se dirige apenas a uma escolha cromática equivocada, mas à lógica que transforma um repertório localizado em medida geral de elegância. Quando isso acontece, características específicas de determinados grupos passam a ser avaliadas a partir de parâmetros que não nasceram delas e nem foram pensados para elas.
É nesse contexto que Cáren faz uma afirmação decisiva: dizer que algo “não é elegante” ou “não é sofisticado”, muitas vezes, significa apenas reconhecer que aquela imagem não corresponde ao repertório dominante de leitura. A avaliação parece neutra, mas carrega uma origem cultural. O que está em jogo, portanto, não é só uma discordância de gosto, e sim o poder de nomear o que será visto como belo, adequado ou legítimo.
A autora recorre à semiótica para aprofundar essa interpretação. Segundo ela, a aparência funciona como linguagem social, e os signos visuais não possuem significados fixos. Eles são lidos dentro de sistemas culturais que determinam o que será interpretado como desejável. Nessa chave, a objetividade da elegância se desfaz.
“Os signos visuais não possuem significados fixos, mas são interpretados dentro de sistemas culturais que determinam o que é considerado adequado, belo ou legítimo. Por isso, quando a consultoria de imagem trata elegância e sofisticação como categorias objetivas, corre o risco de transformar normas culturais específicas em critérios universais de avaliação estética”
Quando a tendência parece neutra
A discussão proposta no livro ganha ainda mais peso no cenário atual, em que expressões como quiet luxury e minimalismo corporativo voltaram a ocupar o centro das conversas sobre imagem pública. Embora muitas vezes apareçam revestidas de neutralidade, discrição ou refinamento técnico, essas tendências também operam como códigos de leitura social. Elas não eliminam a distinção. Apenas a tornam mais difícil de enxergar.
Segundo a autora, longe de democratizar o acesso ou simplificar as relações, a atualização desses códigos contemporâneos mascarou os mecanismos de diferenciação social. As barreiras continuam presentes, mas agora surgem com aparência mais limpa, silenciosa e sofisticada. O efeito é uma complexidade maior: o que antes podia ser percebido de forma mais explícita passa a circular sob o discurso da neutralidade, como se não houvesse ali uma escolha cultural e política.
É por isso que a proposta de Cáren Cruz não aponta para a produção de imagens perfeitas nem para a adequação a um padrão universalmente aprovado. O objetivo, segundo ela, é outro: construir presenças visuais conscientes, contextualizadas e coerentes. Em vez de apagar a individualidade para caber em códigos dominantes, a consultoria identitária busca compreender como essa individualidade pode existir de forma lúcida dentro do campo social.
“A consultoria identitária não busca produzir imagens perfeitas ou universalmente aprovadas. O objetivo é construir presenças visuais coerentes, conscientes e contextualizadas. Presenças que reconheçam tanto a individualidade quanto o campo social em que essa individualidade se manifesta”
No fim, a provocação que atravessa o livro é maior do que a pergunta sobre se alguém está ou não bem vestido. O que Cáren Cruz coloca em discussão é a autoridade por trás dessas classificações e os efeitos que elas produzem. Quando a aparência deixa de ser vista como detalhe e passa a ser entendida como linguagem, a elegância também deixa de parecer um consenso e revela seu lugar de disputa.
Serviço
- Livro: “Quem Decide o Que é Elegante? Imagem, raça e poder na construção da aparência”
- Autora: Cáren Cruz
- Atuação: CEO da Pittaco Consultoria e consultora de imagem identitária
- Participação: 9ª temporada do Shark Tank Brasil
- Tema central: imagem, raça e poder na construção da aparência
- Dado citado: 76% dos consumidores globais consideram suas roupas “muito importantes” para expressar sua identidade, segundo o The Panel Station


