“Agudo Grave”, 21º disco de Zélia Duncan, une maturidade e ousadia em 11 inéditas produzidas por Maria Beraldo, com participações de Lenine e Alberto Continentino.
Quem escutar “Agudo Grave” perceberá que o novo álbum de Zélia Duncan soa, a um só tempo, novo e familiar. É exatamente esse paradoxo que define o disco: a sensação de que Zélia nunca havia feito algo assim e, ao mesmo tempo, de que este álbum é absolutamente ela. Disponível em todos os aplicativos de música, o trabalho chega como celebração de 45 anos de uma carreira que nunca deixou de surpreender.
Produzido e arranjado por Maria Beraldo, o álbum já nasce marcado pelo encontro de duas artistas singulares. Cantora, compositora e instrumentista de sólida formação, Maria é autora de dois discos aclamados pela crítica — “Cavala” (2018) e “Colinho” (2024, indicado ao Grammy Latino) — e se revela a produtora ideal para transitar do pop ao folk, do rock ao choro canção, em arranjos que maximizam a voz de Zélia e a força de cada canção.
Uma discografia como montanha-russa por escolha
Olhando em retrospecto, é nítido como o movimento é a constante na trajetória de Zélia. Álbuns de compositora com verve pop, discos de intérprete com garimpagem fina do cancioneiro da MPB, trabalhos dedicados à vanguarda paulista dos anos 80, parcerias com Simone e Jaques Morelenbaum, um mergulho no samba, canções gravadas na clausura da pandemia. “Uma montanha-russa por escolha”, nas palavras da própria artista.
“Agudo Grave” é o capítulo mais recente dessa trajetória e, para muitos, o mais lapidar. Lançado pelo selo Duncan Discos com distribuição digital da The Orchard, o álbum reúne 11 faixas inéditas e três convidados especiais: Lenine, Alberto Continentino e a própria Maria Beraldo, que também participa como intérprete.
O que se ouve em “Agudo Grave”
O repertório pode ser lido em quatro grandes eixos temáticos. O primeiro, batizado de “Elogio do (demasiado) humano”, reúne canções que confrontam a alienação da era digital. “E aí, IA?” (Alberto Continentino / Zélia Duncan) olha nos olhos da máquina para celebrar a “dúvida visceral” e o “sentimento sensacional” que nenhum algoritmo é capaz de replicar. “Olhos de cimento” (Pedro Luís / Zélia Duncan) clama por gente e “semente para humanizar robôs” num mundo em que “a solidão viralizou”.
Já “Meu plano” (Ná Ozzetti / Zélia Duncan) traça, com leveza e precisão, uma atmosfera propícia para “ser bicho solto e ser humano”, conduzida pelos clarinetes e clarones de Maria Beraldo e pelos violões de aço de Tó Brandileone — também engenheiro de gravação do disco.
Amor, paradoxos e espinha dorsal
O segundo bloco traz canções de amor desprovidas de afobação. “Importante” (Alberto Continentino / Zélia Duncan), dedicada à diretora de arte do disco, Flavia Pedras, companheira de Zélia, canta uma vida que “se colore” entre piano e cavaquinho. “Calmo” (Zeca Baleiro / Zélia Duncan) segue no mesmo balanço, com um “amor Caymmi”, sem pressa. E “Resolvidinho” (Juliano Holanda / Zélia Duncan) une amor e humor ao cantar o trisal perfeito: “eu, você e Freud, com tudo resolvidinho”.
No eixo dos paradoxos, “Maravilha disforme” (Lenine / Zélia Duncan) se destaca com um dueto inspirado sobre os clarinetes de Maria Beraldo. Os versos — “o sólido que escorre / o dia que não corre / o eterno que termina” — já são apontados como alguns dos mais belos escritos em língua portuguesa no presente século.
Minha voz é hoje / meu corpo é estrada toda / minha voz é hoje / minha pele são as curvas todas / minha voz é hoje / minha dor é ontem / e as cicatrizes todas cantam por mim
“Voz” (Maria Beraldo / Zélia Duncan) é um acontecimento à parte. Conduzida por violão solo de João Camarero, Zélia e Maria dividem os vocais de sete versos que soam como uma reza laica. É um dos momentos mais memoráveis do disco e já uma marca inequívoca no solo da música brasileira.
O fim que aponta para o futuro
A faixa que encerra o álbum é uma composição de Itamar Assumpção: “Que tal o impossível?”. Fiel à tradição de revisitar a obra do compositor em seus discos, Zélia entrega aqui uma síntese de tudo que se ouviu nas dez faixas anteriores, com arranjo que reúne todos os músicos do álbum e samplers das outras canções. O último som de “Agudo Grave” é a voz de Zélia, falada e sem acompanhamento, enunciando o título da canção.
É um aceno ao futuro. Para Zélia Duncan e sua alma ultraleve, todo abismo é um convite ao voo.
Serviço
- Álbum: “Agudo Grave” — Zélia Duncan
- Disponível em todos os aplicativos de música
- Produção e arranjos: Maria Beraldo
- Participações: Alberto Continentino, Lenine e Maria Beraldo
- Selo: Duncan Discos | Distribuição digital: The Orchard
- Engenharia de gravação: Tó Brandileone | Mixagem: Ricardo Mosca | Masterização: Carlos Freitas
- Direção de arte: Flavia Pedras


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