Premiado em Madri, “Zuca” narra a brasileira que discriminou e foi discriminada — um espelho incômodo sobre raça, migração e identidade em Portugal.
Quando a advogada carioca Bárbara Weissmann embarca para Lisboa, ela carrega mais do que malas. Leva também um processo por racismo, um filho de 5 anos, um marido e a certeza de que a Europa vai curá-la de tudo. Esse é o ponto de partida de Zuca, novo romance da escritora e psicanalista Fernanda Hamann, publicado pela Editora Urutau com edição simultânea no Brasil e em Portugal.
O livro foi premiado como melhor obra da Mostra Internacional de Livros da GallerySPT, em Madri, e viabilizado pela Bolsa Criar Lusofonia, do Centro Nacional de Cultura do Ministério da Cultura de Portugal — programa com mais de 20 anos de apoio a projetos literários lusófonos de peso.
Uma racista que aprende na pele
Bárbara foi processada após agredir um candidato negro aprovado por cota em um concurso público do qual ela havia sido reprovada. Chegou a passar uma noite na cadeia. Incapaz de reconhecer o próprio preconceito, transforma frustração em ressentimento e decide deixar o Brasil. Em Portugal, descobre que sua condição de brasileira a coloca imediatamente sob suspeita. O olhar desconfiante de parte da sociedade lusitana não faz distinção entre classe social ou cor de pele: ser “zuca” basta.
A narrativa explora essa inversão com precisão cirúrgica. A personagem que nunca se reconheceu como agressora agora ocupa o lugar de alvo. Fernanda Hamann não ameniza a contradição — ela a habita. “Dificilmente um racista se assume como tal”, afirma a autora.
A rasura como recurso literário
Um dos elementos mais originais de Zuca é formal. Estruturado como um diário de imigrante escrito em primeira pessoa, o romance traz Bárbara rasurar graficamente palavras do português brasileiro para substituí-las por expressões lusitanas. É uma tentativa de apagamento da própria identidade — e ao mesmo tempo seu registro mais honesto.
Quando digo bom dia a um motorista de Uber, todos os dias, preciso decidir se vou falar com o sotaque brasileiro (e correr o risco de sofrer preconceito) ou simular o sotaque português (e rasurar a minha própria identidade). Foi muito bacana conseguir criar uma forma literária de representar essa experiência.
Fernanda, que mora em Lisboa e vive essa tensão cotidianamente, transformou a experiência pessoal em linguagem literária. O resultado é uma obra que fala de identidade sem precisar anunciar o tema — ele simplesmente aparece, linha a linha, na forma.
Psicanálise dentro da ficção
Escritora e psicanalista com pós-doutorado em Teoria Literária pela USP, Fernanda Hamann não separa as duas áreas. Em Zuca, os sonhos de Bárbara funcionam como o espaço onde as questões raciais e coloniais emergem sem defesa — culpa mal elaborada, preconceitos herdados da árvore genealógica, memória colonial ainda ativa. A psicanálise não é ornamento: é estrutura.
A autora prefere chamar o fenômeno vivido por sua personagem não de “colonização reversa”, como alguns estudiosos nomeiam, mas de retorno do reprimido — expressão de Freud que descreve o que não foi elaborado e volta à superfície com força redobrada. “Hoje você discrimina, amanhã pode ser discriminado”, resume.
O contexto que torna o livro urgente
Portugal é hoje o segundo principal destino de brasileiros no exterior, com mais de 500 mil pessoas segundo dados do Itamaraty de 2024, atrás apenas dos Estados Unidos. Mesmo atravessado por tensões que remontam ao período colonial, o país europeu segue como projeto de vida para milhares de famílias. É nesse cenário real que Zuca se instala — e é por isso que o livro incomoda.
O escritor Daniel Galera, responsável pelo texto de orelha, define bem o que torna a obra diferente: “Zuca busca o oposto do maniqueísmo didático, oferecendo uma trama construída com ambiguidades e sutilezas, provocando nossos juízos automáticos de justiça e compaixão.”
Trecho
És brasileira? Respondi que sim. Ela emendou outra pergunta: Vieste à nossa terra pra roubar os maridos às portuguesas? E a velha nem me deu tempo de responder que não, de jeito nenhum, já sou casada, e com um brasileiro. A doida chalada agarrou o meu passaporte e avisou: Pois olha bem o que eu faço ao teu documento. Ela tentou rasgar o livrinho ao meio, e só não conseguiu porque reagi a tempo. Eu me debrucei inteira sobre o balcão, com a barriga e com tudo, estiquei os braços em cima da maluca e apanhei de volta o meu documento, todo amassado.
Sobre a autora
Fernanda Hamann tem 47 anos e nasceu no Rio de Janeiro. Formada em jornalismo, começou no mercado editorial como revisora e ghostwriter. Soma mais de dez livros publicados entre romances, contos, ensaios e biografias, e é colunista do jornal português Público. Seu primeiro romance, Cativos (Editora 7Letras, 2015), foi traduzido para o francês e lançado no Salão do Livro de Genebra em 2026. Entre suas referências, cita Nelson Rodrigues pela escrita tensa e sem descanso, além de Marcelino Freire, Andréa Del Fuego e Morgana Kretzmann.
Atualmente, trabalha em um ensaio psicanalítico sobre narcisismo e nacionalismo — “O nacionalismo é o narcisismo de uma nação”, define — e em um romance sobre redes sociais iniciado em 2016.
Serviço
- Livro: Zuca — Fernanda Hamann
- Editora: Urutau | 184 páginas
- Onde comprar: https://editoraurutau.com/titulo/zuca
- Sessão de autógrafos — Feira do Livro de São Paulo: 30 de maio de 2026
- Tardes Literárias — Consulado do Brasil em Lisboa: 26 de junho de 2026, com Álvaro Filho e mediação de Patrícia Cerutti
- Flip: julho de 2026 (data a confirmar)
- Bienal do Livro de São Paulo: setembro de 2026 (data a confirmar)
- Também presente: Feira do Livro de Lisboa (estande Editora Urutau)

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