Há histórias que não surgem da imaginação pura, mas da urgência de compreender o que mudou. É desse lugar íntimo e sensível que nasce O Mosaico da Minha Vida, livro de Bruna Fóglia escrito em parceria com seu filho, Vitor Fóglia de Salles Gonçalves, que transforma uma vivência familiar em uma narrativa capaz de dialogar com muitas outras.
A obra parte de uma imagem simples e potente: o mosaico. Antes mesmo de contar a história, o leitor é convidado a entender que fragmentos, quando vistos isoladamente, podem parecer desconexos, mas, reunidos, formam algo novo — e, muitas vezes, mais rico do que antes. É essa ideia que sustenta toda a narrativa.
Entre a ruptura e o que se reconstrói
A trama acompanha Vitor, um menino que vê sua rotina se transformar após a separação dos pais. Não há dramatização excessiva nem tentativa de suavizar o processo além do necessário. O que se apresenta são cenas reconhecíveis: caixas pela casa, mudanças de espaço e a sensação, ainda difícil de nomear, de que algo importante está sendo reorganizado.
O livro se mantém justamente nesse território intermediário — o da criança que ainda não entende completamente o que acontece, mas percebe, em cada detalhe, que sua vida está mudando. É nessa escuta cuidadosa que a narrativa encontra sua força.
Quando o direito encontra a sensibilidade
A experiência pessoal de Bruna Fóglia se cruza com sua atuação profissional como advogada especializada em Direito de Família. Acostumada a lidar com histórias de ruptura e reorganização, ela traz para o livro uma compreensão profunda dessas transformações — não como teoria, mas como escuta.
“Nem toda mudança é uma perda. Muitas vezes, é o começo de um novo desenho”
Esse entendimento aparece de forma acessível ao público infantil. Conceitos como guarda compartilhada, famílias recompostas e múltiplos vínculos afetivos são traduzidos sem tecnicidade, mostrando que família não é uma estrutura fixa, mas algo que se constrói e se transforma ao longo do tempo.
Novos vínculos, novas formas de pertencimento
A mudança para Londrina marca um ponto importante na narrativa. Mais do que uma troca de cidade, representa o início de uma reorganização emocional. É ali que o personagem começa a reconstruir seu cotidiano e a reconhecer novas referências.
Outras figuras entram em cena — padrastos, irmãos, novos avós — ampliando o conceito de família. Essas presenças não surgem como substituições, mas como acréscimos que expandem as possibilidades de afeto.
Uma escrita construída a duas vozes
O processo de criação do livro, realizado em conjunto por mãe e filho, é um dos seus principais diferenciais. A participação de Vitor garante autenticidade ao olhar infantil, preservando nuances que dificilmente seriam reproduzidas apenas por um adulto.
Há espontaneidade, humor e detalhes que revelam como a criança organiza o mundo ao seu redor. Mais do que um recurso narrativo, essa construção compartilhada se torna parte da própria essência da obra.
“Escrever foi uma forma de organizar o que eu sentia e mostrar que outras crianças também podem passar por isso”
Um olhar ampliado sobre a infância
Diagnosticado com autismo nível 1 e TDAH, Vitor descreve seu funcionamento como um “mosaico em movimento”. A imagem atravessa a narrativa e amplia o alcance do livro, sugerindo que cada criança, com suas particularidades, constrói sua própria forma de compreender o mundo.
Ao longo da história, o que se observa é um deslocamento sutil, porém consistente: da ideia de perda para a de recomposição. O mosaico não volta ao que era antes — ele se transforma. E é nessa transformação que reside a potência da obra.
Literatura que acolhe sem simplificar
Sem recorrer a respostas fáceis ou discursos moralizantes, O Mosaico da Minha Vida se insere em uma vertente da literatura infantil que respeita a complexidade emocional da infância. Em vez de explicar tudo, oferece imagens, silêncios e espaço para que o leitor construa seus próprios sentidos.
As atividades propostas ao final do livro funcionam como uma extensão desse processo, incentivando cada criança a olhar para sua própria história e reorganizar, à sua maneira, as peças que a compõem.
No centro da narrativa está uma ideia que atravessa tanto o direito quanto a literatura: a capacidade humana de reconstruir vínculos e atribuir novos significados ao que, inicialmente, parece apenas ruptura. Ao fazer isso com delicadeza, o livro não apenas conta uma história — ele oferece um caminho possível.
Serviço
- Livro: O Mosaico da Minha Vida
- Autoria: Bruna Fóglia e Vitor Fóglia de Salles Gonçalves

Gostou do nosso conteúdo?
Seu apoio faz toda a diferença para continuarmos produzindo material de qualidade! Se você apreciou o post, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos. Sua ajuda é fundamental para que possamos seguir em frente! 😊