O encontro entre Muca e Roberto Menescal em “Beleza” vai além de uma colaboração musical: é um diálogo entre tempos, territórios e formas de criar. O álbum nasce do desejo de reconexão com a identidade brasileira e transforma essa busca em um projeto que atravessa fronteiras, tanto geográficas quanto estéticas.
Após dezesseis anos vivendo no Reino Unido, Muca retorna às próprias raízes com um trabalho que mistura memória afetiva, experimentação e reverência. Ao lado de Menescal — um dos pilares da bossa nova —, ele constrói uma obra que une mais de seis décadas de história da música brasileira com uma abordagem contemporânea de produção.
Um encontro entre tradição e reinvenção
Como produtor, guitarrista e compositor, Muca conduz a identidade sonora do disco com precisão, equilibrando elementos clássicos da música brasileira com técnicas modernas. O resultado é um repertório que transita entre a delicadeza introspectiva do folk e a leveza ensolarada da bossa nova.
O projeto se constrói a partir de memórias pessoais — como a lembrança do tio tocando cavaquinho em rodas de samba — e se expande em um trabalho coletivo que valoriza a troca artística. Essa essência colaborativa se reflete na presença de um elenco diverso de músicos, letristas e, principalmente, intérpretes.
Para Menescal, a parceria foi também uma oportunidade de renovação criativa:
“Quando Muca me ligou e me convidou para fazer parte deste projeto, fiquei muito animado. Primeiro porque já tínhamos trabalhado juntos e eu gosto das suas músicas e produção. Segundo, porque projetos assim permitem aprender algo novo e trazer novas ideias e pessoas. Eu me diverti muito trabalhando neste disco, e foi maravilhoso poder participar e oferecer orientação ao longo do caminho.”
Doze vozes, múltiplos mundos
“Beleza” se estrutura como um verdadeiro mosaico sonoro. São 12 cantoras, divididas igualmente entre interpretações em português e inglês, criando uma ponte direta entre culturas e públicos distintos.
Entre as artistas convidadas estão Liana Flores, anaiis, Josyara, Fabiana Cozza, Sofia Grant, SARAH, Mirella Costa, Ilessi, Alice SK, Heidi Vogel, Joia Luz e Amanda Maria. Cada uma imprime identidade própria às faixas, ampliando o alcance emocional do álbum.
A proposta é clara: construir um “coro global” onde diferentes vozes coexistem, refletindo uma ideia de harmonia que vai além da música. Cada interpretação revela uma faceta distinta — da melancolia à celebração — compondo uma narrativa não linear, mas expansiva.
Gravação entre cidades e culturas
O processo de criação acompanha essa diversidade. As faixas foram gravadas entre Londres, Rio de Janeiro e São Paulo, em uma dinâmica que incorpora a geografia como parte da sonoridade.
Essa circulação entre estúdios e contextos culturais diferentes contribui para um resultado orgânico, onde cada ambiente deixa sua marca. O álbum não pertence a um único lugar — ele se constrói justamente na interseção entre eles.
Muca destaca o caráter ousado do projeto e o impacto pessoal da jornada:
“Este é, de longe, o projeto musical mais ousado que fiz. Há uma sensação especial em revisitar minhas raízes brasileiras através da música. Eu queria explorar cores, sons e influências diretas, mas também não queria fazer um álbum que pudesse ter sido feito há 50 anos.”
Ele também ressalta o papel das colaborações e da convivência em estúdio com Menescal como elementos centrais na construção do disco.
Faixas que conectam passado e presente
O repertório revela diferentes caminhos dentro da proposta do álbum. O primeiro single, “Playing On The Loose Fields”, com anaiis, apresenta uma atmosfera etérea que valoriza o violão de Menescal e texturas instrumentais delicadas.
“Versos Singelos”, com Mirella Costa, dialoga diretamente com clássicos da bossa nova, enquanto “Ladeira”, interpretada por Josyara, mergulha em referências à mitologia da orixá Obá, conectando ancestralidade e contemporaneidade.
Outros destaques incluem “Midnight Lullaby”, com Liana Flores, que mistura bossa, indie e folk, e “Todo Samba”, em que Fabiana Cozza reforça o gênero como expressão coletiva e curativa. Já “A Beleza de Ser” evoca o cotidiano carioca e referências ao sincretismo afro-brasileiro.
“Beleza” como conceito e posicionamento
Mais do que título, “Beleza” funciona como ideia central do projeto. A palavra ganha novos significados ao longo do álbum, transitando entre expressão cotidiana e afirmação identitária.
No contexto do disco, ela se conecta a movimentos de valorização cultural em comunidades negras, LGBTQIAP+ e periféricas, ressignificando estigmas e transformando-os em potência criativa.
Essa abordagem amplia o alcance da bossa nova, trazendo para o centro vozes e narrativas que historicamente ficaram à margem. Ao mesmo tempo, mantém viva a essência do gênero ao preservar sua sutileza rítmica e sofisticação harmônica.
Menescal resume essa postura de constante reinvenção:
“Eu tenho saudades do novo, e acredito que conseguimos exatamente isso com este álbum.”
Trajetórias que se cruzam
O encontro entre os dois artistas tem raízes recentes. Muca conheceu Menescal pessoalmente em 2019, em Londres, após assistir a uma apresentação do músico. A conexão se transformou rapidamente em parceria, resultando em trabalhos anteriores que já haviam recebido destaque internacional.
Com formação em produção musical e experiência em estúdios como o SARM East Studios, Muca construiu uma carreira marcada por colaborações diversas. Já Menescal carrega uma trajetória que remonta ao nascimento da bossa nova, com participação em momentos históricos como o concerto no Carnegie Hall, em 1962.
Em “Beleza”, essas duas trajetórias se encontram para criar algo que não se limita ao passado nem ao presente — mas aponta para possibilidades futuras da música brasileira.

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