O que o corpo retém vira sintoma, memória e conflito. No romance de estreia de Lucas Limão, o horror não está só na casa assombrada, mas na herança que não se consegue expulsar — nem do intestino, nem da história.
Com um título que causa estranhamento imediato, “Helena Catarina, não faz cocô e tem dor de barriga” chega à 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) como uma das apostas da editora orlando. A trama acompanha Helena, filha de um militar de alta patente, que se muda para uma casa próxima ao hospital onde o pai agoniza. O imóvel, no entanto, é habitado por espíritos perversos que a submetem a um castigo incomum: impedir que ela defeque.
O que começa como um tormento físico evolui para uma investigação sobre o passado familiar e os mecanismos de violência política no Brasil. À medida que a dor se intensifica, Helena busca ajuda espiritual em uma pombagira e passa a conectar os fenômenos sobrenaturais com a trajetória do pai, um oficial ligado a ações brutais durante a ditadura.
“A dor de estar perdendo um ente querido em uma cama de hospital é tão solitária quanto um infindável prisão de ventre.”
Quando o horror íntimo revela o horror histórico
Escrito ao longo de dois anos, o livro nasce do luto vivido por Lucas Limão após a morte do avô. A escatologia não aparece como provocação gratuita, mas como metáfora para a experiência de acompanhar a deterioração de alguém próximo. O corpo, nesse contexto, torna-se campo de batalha emocional e político.
Ao investigar a casa, Helena descobre que o local foi palco de um massacre em um terreiro de candomblé durante a ditadura de 1964. A operação foi liderada por seu próprio pai, o Major Tenente Coronel Afonso Catarina. A revelação desloca o terror do sobrenatural para o campo histórico, onde a violência institucional ganha contornos ainda mais perturbadores.
A narrativa apresenta também os “Amarelistas”, uma organização golpista dentro das Forças Armadas, e coloca a protagonista diante de um dilema moral: como lidar com o amor por alguém responsável por atrocidades? A resposta surge em forma de ambiguidade, mediada pela espiritualidade.
Religião, música e memória como atravessamento
A religiosidade de matriz africana e indígena ocupa papel central. Em uma casa de timbanda, Helena encontra acolhimento e ferramentas para lidar com o que carrega — física e simbolicamente. A pombagira que a orienta sintetiza o conflito central da obra ao afirmar que amor e ódio coexistem, sem anular um ao outro.
A trilha sonora também estrutura a narrativa. Canções de Gal Costa, Rita Lee, Belchior, Ave Sangria e Tião Carvalho acompanham o percurso emocional da personagem, funcionando como extensão sensorial da experiência.
No prefácio, Ramon Guilherme Gomes destaca a capacidade do autor de transformar o banal em matéria estética e emocional. A proposta, ainda que marcada por humor e estranhamento, se ancora em questões profundas: herança, culpa e identidade.
Entre o que herdamos e o que expulsamos
Criada sob os rigores da disciplina militar, Helena carrega marcas que não escolheu. Em um dos momentos mais contundentes, ela admite ter cometido um crime sob orientação do pai, evidenciando como a herança familiar pode ultrapassar o campo simbólico e se tornar ação concreta.
Com 96 páginas, o romance se dirige especialmente a leitores entre 25 e 35 anos, mas amplia seu alcance ao tratar de temas universais. O terror aqui não busca apenas assustar: ele expõe, tensiona e questiona aquilo que permanece dentro — seja no corpo, seja na história.
Serviço
- Lançamento: Helena Catarina, não faz cocô e tem dor de barriga
- Autor: Lucas Limão
- Editora: orlando
- Gênero: Terror / Romance
- Páginas: 96
- Evento: 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip)
- Sessão de autógrafos: 25 de julho, às 11h, na Casa Ópera
- Site: https://editoraorlando.com.br/produto/helena-catarina/

