Montagem da Companhia Ensaio Aberto retorna ao Teatro Vianinha, no Armazém da Utopia, e recoloca em cena a trajetória de Olga Benario Prestes para discutir memória, resistência e a forma como a história brasileira é narrada.
A partir de 16 de agosto, o espetáculo “Olga” ganha nova temporada no Teatro Vianinha, no Armazém da Utopia, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, com apresentações até 28 de setembro, sempre às 20h, de sexta a segunda-feira.
A montagem propõe uma reflexão sobre memória, resistência e a importância de revisitar acontecimentos que ainda ecoam na sociedade brasileira, recolocando em cena a trajetória de Olga Benario Prestes a partir de documentos históricos, arquivos e testemunhos.
Com dramaturgia e direção de Luiz Fernando Lobo, a Companhia Ensaio Aberto mergulha em uma ampla pesquisa em arquivos brasileiros, europeus e americanos, reunindo documentos primários para reconstruir a trajetória da militante comunista e revisitar um dos episódios mais marcantes da história política brasileira.
“Os documentos, mesmo os aparentemente mais claros, não falam senão quando sabemos interrogá-los.”
A companhia reabre arquivos, escava documentos e traz à tona registros que confrontam a história oficial, em diálogo direto com a reflexão do historiador Marc Bloch, segundo quem “nunca, em nenhuma ciência, a observação passiva gerou algo de fecundo”.
Esse é o ponto de partida de “Olga”, espetáculo que segue a tradição do teatro documentário, elaborada por Erwin Piscator e desenvolvida por Peter Weiss, propondo uma nova leitura da história ao evidenciar contradições, questionar narrativas consolidadas e lançar novos olhares sobre um período delicado da política brasileira.
Zona Portuária como lugar de memória
A temporada carioca ganha significado adicional por acontecer na Zona Portuária do Rio de Janeiro, de onde Olga Benario Prestes foi deportada, a bordo do navio La Coruña, para a Alemanha nazista.
Ao ocupar o Armazém da Utopia na Região Portuária, a montagem se inscreve num espaço marcado por passagens decisivas da história brasileira, articulando a memória de Olga com o território de onde ela foi arrancada em 1936.
A encenação convoca o público a revisitar esses acontecimentos não como relato distante, mas como parte de uma história que ainda produz efeitos e disputas no presente.
“Pedimos àqueles que vierem depois de nós não a gratidão por nossas vitórias, mas a rememoração de nossas derrotas.”
A frase de Walter Benjamin, incluída no material do espetáculo, ecoa como linha de força da montagem, que insiste na rememoração das derrotas como modo de compreender o passado e tensionar o presente.
Olga Benario: militância, coragem e solidariedade
Nascida em Munique, em 1908, Olga Benario Prestes militou no movimento comunista desde a adolescência, enfrentando desde cedo a repressão policial.
Treinada como agente do Comintern (Internacional Comunista) em Moscou, veio ao Brasil nos anos 1930 em missão política ao lado de Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança.
Presa em 1936, foi deportada para a Alemanha nazista por ordem do governo de Getúlio Vargas quando estava grávida de sete meses, e assassinada em 1942 na câmara de gás do campo de concentração de Bernburg.
Sua filha, Anita Leocádia Prestes, sobreviveu graças a uma mobilização internacional e costuma lembrar essa origem ao afirmar: “Sou filha da solidariedade internacional”.
Comunista, internacionalista e antifascista, Olga começou a militar com 16 anos, e era descrita como uma mulher de grande coragem e inteligência.
Aviadora, paraquedista, exímia atiradora, exímia nadadora e amazona, entra na clandestinidade aos 18 anos após realizar uma ação armada para libertar seu companheiro e mentor político Otto Braun de um presídio de segurança máxima.
Em 1935, chega ao Brasil como segurança de Luiz Carlos Prestes, e em 5 de março de 1936, quando a polícia “estoura” o esconderijo dos dois, já casados, no Méier, ela se coloca à frente de Prestes e impede que ele seja morto pela polícia de Getúlio Vargas.
Ela foi assassinada, mas sua luta, suas escolhas e sua biografia seguem sendo revisitadas até hoje, agora também pela perspectiva cênica da Companhia Ensaio Aberto.
Companhia Ensaio Aberto e teatro épico
A Companhia Ensaio Aberto nasceu em 1992 com a proposta de retomar o teatro épico no Brasil e fazer dos palcos uma arena de discussão da realidade, resgatando sua vocação crítica e política.
Fundada pelo diretor Luiz Fernando Lobo e pela atriz Tuca Moraes, a companhia explora a ideia do ensaio como experimento, buscando retomar a função social do teatro e transformar a relação entre palco e plateia.
Em “Olga”, esse projeto artístico se materializa na combinação entre pesquisa documental, estrutura épica e reflexão histórica, com atenção às contradições e às lacunas da narrativa oficial.
Elenco e equipe da montagem
O espetáculo tem dramaturgia e direção de Luiz Fernando Lobo e reúne o núcleo artístico da Companhia Ensaio Aberto.
No elenco, Tuca Moraes interpreta Olga, ao lado de Ana Clara Assunção, Bibi Dullens, Dani Arreguy, Daniel de Mello, Gilberto Miranda, Kyara Zenga, Leonardo Hinckel, Luiz Fernando Lobo, Mateus Pitanga, Rossana Rússia e Nicholas Peixoto, este como estagiário artístico.
A equipe artística é encabeçada por J.C. Serroni na cenografia, Beth Filipecki e Renaldo Machado nos figurinos, Cesar de Ramires na iluminação, Felipe Radicetti na direção musical e trilha original, e Aninha Barros na produção executiva.
A direção de produção é de Tuca Moraes, reforçando a centralidade da parceria artística que estrutura a trajetória da companhia.
Serviço
- Título: OLGA RIO DE JANEIRO
- Temporada: De 16 de agosto a 28 de setembro de 2026
- Local: Teatro Vianinha, Armazém da Utopia – Armazém 6, Boulevard Olímpico, Região Portuária, Rio de Janeiro
- Horário: Sextas às segundas-feiras, às 20h
- Lotação: 120 lugares
- Ingressos: Inteira R$60, Meia R$30
- Vendas: www.sympla.com/armazemdautopia
- Abertura da casa: 1h antes do início do espetáculo, com cota de ingressos liberados no dia por ordem de chegada, sujeito à lotação
- Agendamento de grupos: WhatsApp (21) 97976-0046
- Classificação indicativa: 14 anos
- Duração: 70 minutos
- Acessibilidade: Haverá intérprete de Libras nos dias 11 e 18 de setembro


