Ceilândia assume o papel de cidade de quadrinhos em Manual do Herói, longa de Fáuston da Silva que estreia nos cinemas em 13 de agosto com um protagonista brasileiro em crise, entre ação, comédia e ficção científica.
Enquanto blockbusters como Homem-Aranha: Um Novo Dia voltam a disputar atenção nas grandes salas, o cinema nacional coloca em cena seu próprio defensor mascarado das rotinas urbanas. Em Manual do Herói, dirigido e roteirizado por Fáuston da Silva, a mitologia dos super-heróis ganha sotaque do Distrito Federal e transforma Ceilândia em cenário de aventura, humor e fantasia.
O filme chega aos cinemas em 13 de agosto com distribuição da O2 Play e produção da Esmero Filmes e Hoje Filmes, depois de conquistar público e crítica no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A comédia de ação foi premiada e consolidou o personagem central como um herói nascido da correria cotidiana, distante dos arranha-céus de Gotham ou Nova York.
“Ser herói não é poder. É querer”, resume a ideia que atravessa o filme, deslocando o foco dos poderes sobrenaturais para as escolhas diárias.
Desde a escrita do roteiro, o projeto se perguntou como trazer ao Brasil uma mitologia tão ligada aos quadrinhos urbanos americanos sem apenas reproduzir seus códigos. A resposta foi imaginar como esse universo poderia ganhar ritmo, humor e contradições brasileiras, partindo de Brasília e chegando a Ceilândia como espécie de “Bronx” local: território periférico, vibrante, com tensão, cultura e personagens que parecem prontos para saltar da página para a tela.
Um manual misterioso e um mundo em ruínas
Na trama, tudo começa durante um assalto, quando Agnus recebe um livro enigmático: o próprio Manual do Herói. Ao se aprofundar nas páginas, ele encontra um mundo em ruínas, onde um pacto entre vilões e omissos ameaça devorar o que ainda resta de virtude.
Entre desafios sobrenaturais, descobertas pessoais e confrontos de grande escala, o jovem precisa decidir se aceita assumir um papel que extrapola sua vida imediata. O conflito não se limita ao destino individual: a história o força a encarar o impacto de suas escolhas sobre todo o entorno.
Mais do que uma homenagem direta ao gênero dos super-heróis, manual do heroi reorganiza esses códigos a partir da realidade brasileira. A narrativa cruza cultura urbana, periferias do Distrito Federal e referências à ancestralidade indígena, criando um universo ainda pouco explorado no audiovisual nacional.
Agnus, um herói da correria diária
O protagonista Agnus é interpretado por Eduardo Ydiriuá, que recebeu o prêmio de Melhor Ator no 57º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro justamente por sua atuação no longa. Filho de Samambaia e descendente do povo indígena Karajá, do Pará, o ator carrega na própria trajetória alguns dos temas que o filme explora.
Segundo Eduardo, é difícil que o público não se reconheça no personagem. Ele descreve Agnus como alguém na correria de todos os dias, dividido entre estudos, trabalho, problemas em casa e fora de casa. É um jovem que levanta de madrugada e vai dormir de madrugada, tentando equilibrar a vida profissional e a vida pessoal, sem qualquer garantia de recompensa heroica.
Para o intérprete, aí se encontra o centro da proposta: “Todo mundo tem um herói dentro de você. Ser herói não é só ter superpoderes. É ser como o Agnus, que levanta de madrugada e vai dormir de madrugada, tentando balancear a vida profissional e a vida pessoal mesmo sendo muito jovem”, resume, reforçando a ligação direta entre fantasia e experiência cotidiana.
Reconhecimento em festivais e universo em expansão
Antes mesmo da estreia comercial, manual do heroi já passou pelo crivo de curadorias voltadas para diversidade e experimentação estética. A produção integrou a seleção oficial da 4ª OJU – Roda Sesc de Cinemas Negros e da Mostra de Cinema Rolê 22, ampliando sua circulação e consolidando o reconhecimento do projeto.
O elenco reúne Elaine Amaro, Aline Araújo, Lila Kamayurá, Pablo Magalhães, Luiz Senna, Lino Ribeiro, João Gott, Luana Wernik e Fabrizia Posada, formando uma galeria de personagens que expande as possibilidades desse universo ficcional. Participações especiais de Bruno Torres e Sérgio Sartório também ajudam a compor a paisagem humana da narrativa.
Desde sua concepção, o mundo de manual do heroi foi pensado com potencial para futuras continuações, seja retomando a jornada de Agnus, seja explorando outras figuras que habitam essa Ceilândia de quadrinhos. A ideia de série de histórias fica implícita na riqueza de detalhes que o filme apresenta sobre cenário, mitologia e conflitos.
Financiamento e contexto de produção
Manual do Herói conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal, do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e da Lei Paulo Gustavo. A combinação desses mecanismos de incentivo demonstra como políticas públicas têm sustentado a criação de narrativas de gênero dentro do cinema brasileiro contemporâneo.
O resultado é um longa de 99 minutos, classificado como ação, comédia, ficção científica e aventura, com indicação “não recomendado para menores de 12 anos”. Dentro desse tempo, o filme tenta equilibrar entretenimento de gênero com comentários sobre omissão, responsabilidade e as formas de violência que atravessam o cotidiano nas periferias.
Fáuston da Silva e a passagem para o longa
Fáuston da Silva, responsável pela direção e roteiro, é cineasta, roteirista e produtor brasiliense, formado em Audiovisual pela Universidade de Brasília (UnB). A carreira dele já vinha marcada por forte presença em festivais, principalmente graças ao curta Meu Amigo Nietzsche.
Este curta-metragem se tornou um dos mais premiados da história do cinema brasileiro, somando mais de 100 prêmios e reconhecimentos em eventos importantes ao redor do mundo. Entre eles estão o Festival de Brasília, Clermont-Ferrand, na França, e o Festival de Sapporo, no Japão, experiências que ajudaram a lapidar o olhar do diretor para narrativas que unem reflexão filosófica e dimensão popular.
Ao longo da trajetória, ele também dirigiu filmes como O Balãozinho Azul e A Terra em que Pisar, consolidando um repertório de obras focadas em personagens em transformação. manual do heroi marca sua estreia na direção de longas-metragens, funcionando como passagem para uma escala maior sem abandonar o interesse por temas ligados à formação, ética e cotidiano.
Ficha técnica
- Título: Manual do Herói
- Direção e roteiro: Fáuston da Silva
- Produção: Esmero Filmes e Hoje Filmes
- Distribuição: O2 Play
- Elenco: Eduardo Ydiriuá, Elaine Amaro, Aline Araújo, Lila Kamayurá, Pablo Magalhães, Luiz Senna, Lino Ribeiro, João Gott, Luana Wernik e Fabrizia Posada; participações especiais de Bruno Torres e Sérgio Sartório.
- Gênero: Ação, comédia, ficção científica, aventura
- Duração: 99 minutos
- Classificação indicativa: Não recomendado para menores de 12 anos




