O centenário de Berta Loran chega ao teatro com uma montagem que revisita sua trajetória e questiona o apagamento da memória artística no Brasil.
Uma das grandes comediantes do país, Berta Loran (1926-2025) tem seu centenário de nascimento celebrado no lugar onde mais se sentia feliz: o teatro. Com texto de Miriam Halfim, sobrinha de Berta, e Marcelo Aquino, e direção de Ary Coslov, o espetáculo inédito “Berta – Minha vida por um palco” está em cartaz no teatro do Centro Cultural Justiça Federal (CCJF) entre 4 e 27 de setembro de 2026.
No elenco, Andrea Dantas, Alexandre Regis, Junior Vieira e Patrícia Pinho dão vida a uma narrativa que transita entre a comédia e a crítica contundente sobre o esquecimento cultural no Brasil.
“Nós somos um país com um problema sério de preservação da memória. Tem uma questão cultural com a memória, a gente apaga com muita rapidez muitos artistas.”

Uma vida construída entre palcos e personagens
A montagem acompanha as etapas marcantes da vida de Berta, desde a infância difícil em Varsóvia, na Polônia, até sua morte aos 99 anos, em 2025, em Copacabana.
Berta migrou para o Brasil aos 9 anos de idade, junto com os pais e cinco irmãos, fugindo da perseguição nazista crescente na Europa. Ao chegar ao Rio de Janeiro, a família se instalou em um sobrado na Praça Tiradentes. Por incentivo do pai, que era alfaiate e ator, Berta ingressou no teatro ainda adolescente e nunca parou.
Com quase oito décadas de carreira e mais de 2 mil personagens, começou no teatro de revista, participou de dezenas de peças teatrais e ganhou fama em todo o Brasil nos programas de humor da televisão.

Da experiência em Portugal à Manuela D’Além Mar
A ida a Portugal para participar da peça “Fogo no Pandeiro” rendeu a Berta um enorme sucesso no país, onde morou por seis anos, entre o fim dos anos 1950 e o início dos anos 1960.
Essa experiência acabou criando uma das personagens mais marcantes de sua carreira na televisão. Nos anos 1990, na “Escolinha do Professor Raimundo”, Berta interpretou a imigrante portuguesa Manuela D’Além Mar, cujo sotaque carregado e o bordão “Manuela D’Além Mar, de Trás-os-Montes, sim senhoire!” se tornaram sua marca registrada.

O humor como forma de preservar a memória
Com humor ácido, a montagem utiliza a figura da icônica comediante para dialogar sobre a falta de preservação da memória artística e histórica do país.
Como dramaturga, Miriam Halfim tem se destacado com obras que jogam luz sobre personalidades e episódios históricos. Filha de um dos irmãos de Berta, a autora teve muito contato com a tia ao longo de sua vida.
“O palco deu a ela tudo o que ela quis. Apesar de uma infância muito difícil, miserável, em Varsóvia, Berta escolheu viver com alegria. Ela dizia que felicidade é uma escolha.”
“É muito importante que as pessoas conheçam a história da vida dela e se lembrem de Berta Loran. Ela era extremamente talentosa”, diz o diretor Ary Coslov, que decidiu ter duas atrizes — Andrea Dantas e Patrícia Pinho — dividindo o papel de Berta Loran, além de fazerem outros papéis, em diferentes etapas da trajetória da artista.
Para construir a narrativa da peça, além das muitas lembranças pessoais, Miriam contou com a extensa pesquisa do ator, diretor e autor Marcelo Aquino, coautor do texto.
“Por isso, acho que a Miriam presta um serviço não só para arte, mas também para a memória. A Berta é uma artista que abriu caminho para muitos humoristas que estão aqui hoje, principalmente para as mulheres”, afirma Marcelo.

Uma equipe dedicada à montagem
A equipe de criação reúne nomes dos bastidores do teatro brasileiro. A iluminação é de Aurélio de Simoni, os figurinos foram criados por Mauro Leite e a trilha sonora do espetáculo é assinada por Ary Coslov e Marcelo Aquino. A direção de produção fica a cargo de Celso Lemos.

Serviço
- Espetáculo: “Berta – Minha vida por um palco”.
- Temporada: de 4 a 27 de setembro de 2026.
- Dias e horários: sextas, às 19h; sábados e domingos, sessões duplas às 16h30 e às 19h.
- Local: CCJF – Centro Cultural Justiça Federal.
- Endereço: Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro.
- Ingressos: pela Sympla.
- Valores: R$ 60 (inteira) e R$ 30 (meia).
- Classificação indicativa: 14 anos.
- Duração: 80 min.
- Instagram: @berta.teatro.




