A luta pela sobrevivência e o malabarismo diário para garantir um prato de comida conduzem a releitura brasileira de um dos maiores textos do teatro cômico universal.
Para comemorar seus 35 anos de história nos palcos, o grupo Parlapatões estreia o espetáculo inédito Arlequim, Servidor de Dois Patrões no teatro do Sesc Bom Retiro. A montagem, que cumpre temporada de 2 de outubro a 15 de novembro de 2026, resgata a dramaturgia de Carlo Goldoni para construir uma reflexão contundente sobre desigualdade social, fome e as pressões da rotina popular.
Escolhemos essa peça porque ela é celebrativa, popular e porque trata de um tema que parece que as pessoas abandonaram: que é a fome. O teatro é político e é completamente brincalhão, sem ficar na lamúria, mas valorizando o que a pobreza tem de inteligência para sobreviver, que é a principal característica do Arlequim.

Palhaçaria, fuxico e brasilidade no lugar das máscaras
Embora mantenha a essência dos arquétipos e o improviso herdados da tradição italiana da Commedia dell’Arte, a montagem dirigida por Hugo Possolo transporta a narrativa para o imaginário visual e rítmico do Brasil. Em vez do rigor histórico convencional, entram referências a elementos populares, arte visual brasileira, religiosidade e pontos turísticos.
No visual da encenação, as máscaras rígidas cedem espaço à maquiagem expressiva, enquanto os bordados e rendas de época são substituídos pela técnica do fuxico e por tonalidades vibrantes. O dinamismo cênico agrega números de acrobacia e composições musicais originais assinadas por Alexandre Dalóia, reforçando a atmosfera festiva de picadeiro.
Possolo assume também o papel do protagonista, um tipo astuto que precisa se desdobrar entre ordens simultâneas para conseguir se alimentar. O enredo ganha paralelo direto com a realidade contemporânea dos trabalhadores que lidam com jornadas duplas e instabilidade financeira para garantir a própria subsistência.
Confusões de identidade e a busca por um prato de comida
Na história original adaptada, Arlequim aceita trabalhar ao mesmo tempo para dois chefes sem que um saiba da presença do outro. De um lado está Beatriz, jovem que viaja disfarçada com a identidade de seu falecido irmão, Federico Rasponi, à procura do amado Florindo de Aretusi. Do outro, o próprio Florindo, que fugiu após ser acusado do assassinato de Federico.
As peripécias e os desencontros se intensificam à medida que o protagonista se atrapalha com cartas, bagagens e pratos servidos, usando o jogo de cintura para não ser desmascarado enquanto tenta concluir pelo menos uma refeição completa.
O elenco reúne integrantes tradicionais da trupe, como Alexandre Bamba, Camila Turim, Henrique Stroeter e Tadeu Pinheiro, além da participação de artistas convidados: Rachel Ripani, Jéssica Turbiani, Robert Gomez, Demian Pinto, Gui Calzavara, Sabrina Cristina e Victor Martins.
Trajetória e celebrações conjuntas na cena paulistana
Criado em 1991, o Parlapatões contabiliza 71 espetáculos produzidos, além de ações contínuas voltadas ao teatro de rua, intervenções urbanas e festivais. A temporada coincide ainda com os 20 anos de atividades do Espaço Parlapatões, polo cultural situado na Praça Franklin Roosevelt, e com as oito décadas do Sesc.
Serviço
- Espetáculo: Arlequim, Servidor de Dois Patrões
- Temporada: 2 de outubro a 15 de novembro de 2026 (exceto dias 4 e 25 de outubro)
- Horários: sextas e sábados, às 20h; domingos, às 18h. Sessão extra em 6 de novembro, às 15h
- Local: Sesc Bom Retiro
- Endereço: Alameda Nothmann, 185 – Campos Elíseos, São Paulo
- Capacidade: 291 lugares
- Duração: 90 minutos
- Classificação indicativa: 10 anos
- Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida; sessões com audiodescrição em 7 de novembro e Libras em 8 de novembro
- Ingressos: R$ 60 (inteira), R$ 30 (meia-entrada) e R$ 18 (credencial plena)
- Vendas: bilheterias das unidades, aplicativo Credencial Sesc SP e pelo site https://www.sescsp.org.br/programacao/arlequim-servidor-de-doi/
