Estreia gratuita leva periferia ao centro da cena e mistura rap, corpo e política em circulação por São Paulo e Santo André.
A partir do dia 13 de maio, a peça Nitrido ou a dramaturgia de Cavalo chega ao CEU Três Pontes, em São Paulo, propondo uma experiência que rompe fronteiras entre palco, plateia e território. Com dramaturgia e direção de Laís Cafari, o espetáculo nasce das margens — e faz delas o próprio centro da cena.
Mais do que uma encenação, a obra constrói um ambiente vivo. Os atuadores Jefferson Silvério, Dante Preto, João Carlos, Abraão Kimberley e o rapper Janderson Fundação iniciam a ação no meio do público, dissolvendo qualquer distância tradicional. O espectador não observa: ele atravessa junto.
O título já aponta o caminho. “Nitrido” significa ato de relinchar — um som bruto, orgânico, impossível de ignorar. É exatamente essa energia que move a peça, que alterna corpos humanos e corpos-cavalo em cena, criando uma dramaturgia híbrida, física e simbólica.
Quando o território vira linguagem
A montagem se ancora em uma pesquisa profunda sobre o cotidiano alimentar na periferia, conduzida por Laís Cafari a partir de sua vivência no Jardim Romano. A escassez de alimentos frescos, a presença massiva de ultraprocessados e as desigualdades visíveis até nas feiras livres atravessam a construção da cena.
No palco, esses elementos ganham forma concreta. Caixas de feira, alimentos, objetos de transporte e montanhas de lixo compõem o espaço cênico, revelado gradualmente. A estética não ilustra — ela denuncia, tensiona e reposiciona o olhar.
Ao mesmo tempo, a trilha sonora pulsa com tambores, rezas, trompete e rap ao vivo. A palavra falada ganha força coletiva, ecoando como manifesto e encantamento.
“Nosso povo tem morrido pela boca, ingerindo aquilo que nunca se estraga, mas é também pela boca que enfeitiçamos.”
O texto, assinado por Cafari, nasce da rua e retorna a ela. A dramaturgia se constrói como um “portal”, onde experiência, política e imaginação se misturam. Não há separação entre estética e urgência.
Criação coletiva e potência de encontro
A peça também é resultado de encontros. O projeto surgiu dentro do “Jardim de Narrativas”, do Coletivo Estopô Balaio, e se expandiu com a formação do grupo Morango sem doce. A colaboração entre artistas, estudantes e coletivos é parte essencial da obra.
Essa dimensão coletiva aparece não apenas nos créditos, mas na própria estrutura do espetáculo. O corpo em cena é também produção, música, figurino e discurso. Tudo se mistura como estratégia de sobrevivência e criação.
Laís Cafari, que assina dramaturgia e direção, carrega em sua trajetória a vivência direta com o teatro de rua e projetos comunitários. Formada na prática e na coletividade, ela transforma sua experiência em linguagem cênica potente, atravessada por identidade, território e resistência.
Ao propor que o público “invada a realidade com o sonho da corrida voluntária”, a peça aponta para um horizonte possível — onde arte, desejo e política caminham juntos.
Circulação amplia o alcance
Após a estreia, Nitrido ou a dramaturgia de Cavalo segue em circulação por diferentes espaços culturais de São Paulo e Santo André. Todas as apresentações são gratuitas, com sessões acessíveis em Libras e encontros com o público.
A proposta é clara: ocupar, expandir e transformar. Levar o teatro das bordas para todos os cantos — sem perder sua origem.
Serviço
- Peça: Nitrido ou a dramaturgia de Cavalo
- Instagram: @cavaloteatro
- 13 de maio (quarta): 15h (com Libras + bate-papo com a nutricionista Melissa Tarrão)
- 14 de maio (quinta): 15h e 19h (sessão das 19h com Libras)
- Local: CEU Três Pontes — Rua Capachós, s/n, Jardim Celia, São Paulo
- 15 de maio (sexta): 19h (com Libras + bate-papo)
- 18 de maio (segunda): 15h e 19h (sessão das 19h com Libras)
- 22 de maio (sexta): 10h e 15h
- 23 de maio (sábado): 15h (com Libras)
- Local: CEU São Miguel — Rua José Ferreira Crespo, 475, São Paulo
- 12 de junho (sexta): 21h
- 14 de junho (domingo): 18h (com Libras)
- Local: Teatro Arthur Azevedo — Av. Paes de Barros, 955, São Paulo
- 18 de junho (quinta): 20h
- 20 de junho (sábado): 20h (com Libras)
- 21 de junho (domingo): 19h
- Local: Centro Cultural Penha — Largo do Rosário, 20, São Paulo
- Local adicional: Teatro Conchita de Moraes — Praça Rui Barbosa, 12, Santo André
- Classificação: Livre
- Duração: 90 minutos
- Entrada: Gratuita




