Duas estudantes da rede municipal do Rio de Janeiro vão atravessar o Atlântico para apresentar um filme criado dentro da própria escola. Nathaly Hiara e Ana Julia, ambas de 14 anos, foram selecionadas para participar do encontro internacional À Nous Le Cinéma!, na Alemanha, levando na bagagem o curta “Girando para o Futuro”, desenvolvido no Programa Imagens em Movimento.
O evento acontece entre os dias 8 e 10 de junho, no Deutsches Filminstitut & Filmmuseum, e reúne estudantes, educadores e cineastas de 15 países. A presença das jovens da Penha Circular marca mais um capítulo da participação brasileira na iniciativa, que acontece desde 2011 por meio do programa.
Do bairro para o mundo
Produzido dentro da escola, o curta “Girando para o Futuro” acompanha a trajetória de Helena, uma menina que precisa se adaptar a uma nova realidade após se mudar de bairro. Ao encontrar na dança um espaço de acolhimento, a personagem descobre novas formas de pertencimento, mesmo diante de conflitos familiares.
A narrativa reflete temas próximos da vivência de muitos estudantes e ganha força justamente por nascer desse contexto. É essa autenticidade que conecta o filme a uma proposta maior do encontro: estimular a expressão criativa e o olhar crítico por meio do audiovisual.
Experiência que transforma
Para Ana Julia, a participação no projeto começou sem grandes expectativas, mas rapidamente se transformou em uma experiência marcante. A descoberta do cinema dentro da escola abriu caminhos inesperados.
“Participar do PIM está sendo uma experiência incrível. Eu nem sabia que tinha aulas de cinema na minha escola. Eu entrei com baixas expectativas e focando em aprender a parte técnica. Mas quando soube da viagem e do filme, fiquei muito empolgada. É uma oportunidade única. Estou muito feliz”
Nathaly Hiara, que já havia participado do projeto anteriormente, reforça o impacto coletivo da experiência. Em 2025, ela foi protagonista do curta “Axé, Iara”, que aborda a intolerância religiosa. Agora, retorna ao cenário internacional com uma nova produção.
“Ainda é estranho pensar que eu fiz um filme, mas o mais importante pra mim é saber que isso aconteceu por causa de um trabalho em equipe. Não foi só uma conquista minha, foi uma conquista de todos os meus amigos e de todo mundo que participou do projeto. Estou muito ansiosa e animada com tudo isso”
Cinema como ferramenta de educação
O encontro À Nous Le Cinéma! propõe mais do que exibição de filmes. A programação inclui debates e trocas entre participantes de diferentes países, todos conectados por uma metodologia pedagógica comum, que utiliza o cinema como ferramenta de formação crítica e criativa.
Nesta edição, o evento conta com a participação das cineastas francesas Claire Simon e Claire Burger como madrinhas, ampliando ainda mais o diálogo entre gerações e experiências no campo audiovisual.
Para Ana Dillon, diretora do Imagens em Movimento, o reconhecimento internacional reforça o papel dos estudantes como autores de suas próprias narrativas.
“Os estudantes são reconhecidos não apenas como protagonistas dos filmes, mas como verdadeiros autores. Eles compartilham suas vivências e processos criativos com um público extremamente diverso, promovendo o diálogo entre culturas diferentes a partir de perspectivas singulares”
Um programa que amplia horizontes
Criado no Rio de Janeiro, o Programa Imagens em Movimento é uma iniciativa da ONG Raiar (Rede de Ações e Interações Artísticas) e tem como foco levar o audiovisual para dentro da educação pública. Ao longo de 15 anos, o projeto se consolidou como uma ferramenta de transformação cultural e pedagógica.
Desde 2022, o programa expandiu suas atividades para outros estados, como Espírito Santo, São Paulo e Bahia. Em 2026, serão atendidas sete escolas no Rio de Janeiro, duas em Macaé e uma em Cumuruxatiba, na Bahia, com atividades distribuídas ao longo do ano.
No primeiro semestre, as ações acontecem em escolas da Lagoa, Penha, Oswaldo Cruz e Centro. Outras três unidades devem ser contempladas no segundo semestre, ampliando ainda mais o alcance do projeto.
Os números ajudam a dimensionar o impacto: 153 escolas atendidas em diferentes estados, três mil estudantes participantes e 229 curtas-metragens produzidos. Mais do que estatísticas, são histórias que ganham forma, voz e circulação — como a de Nathaly e Ana Julia, que agora chegam ao público internacional.
A participação no evento na Alemanha simboliza não apenas uma conquista individual, mas um reflexo direto do potencial da educação pública quando aliada à arte e à escuta ativa dos jovens.


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