A circulação de Nitrido ou a dramaturgia de Cavalo transforma o teatro em território vivo ao propor uma experiência que nasce nas margens e desloca o público para dentro da cena. Com direção e dramaturgia de Laís Cafari, o espetáculo passa pelo Teatro Arthur Azevedo e pelo Centro Cultural Penha ao longo de junho, com entrada gratuita.
Mais do que uma montagem tradicional, a obra se constrói como um gesto político e estético. A proposta é direta: ocupar as bordas — sociais, geográficas e simbólicas — como força de criação. O teatro deixa de ser apenas palco e plateia para se tornar um espaço compartilhado de presença, conflito e expressão.
Uma dramaturgia que nasce das margens
O título carrega um significado essencial para a obra. “Nitrido” significa ato de relinchar, e a escolha não é simbólica por acaso. A peça emerge da periferia e se estrutura a partir dessa origem, fazendo da borda o próprio centro da encenação.
No palco, ou melhor, no espaço ocupado, os atuadores Jefferson Silvério, Dante Preto, João Carlos, Abraão Kimberley e o rapper Janderson Fundação iniciam a ação na plateia. Esse movimento já redefine a relação com o público, oferecendo uma experiência sensorial e coletiva do que significa existir nas margens de forma ativa.
Instrumentos musicais integram a dramaturgia com rezas, batuques e rap ao vivo. A presença sonora não acompanha a cena — ela é parte estrutural da narrativa, assim como o corpo dos atuadores e o espaço que ocupam.
Corpo, território e alimento como linguagem
A pesquisa de Laís Cafari sobre alimentação na periferia é um dos pilares da criação. A investigação parte do Jardim Romano, território onde a falta de tempo e recursos impacta diretamente o acesso a alimentos frescos, ampliando o consumo de ultraprocessados.
Essa realidade atravessa a cena. Frutas, legumes, caixas de feira e objetos de locomoção compõem o ambiente, enquanto os atuadores desenvolvem uma coreografia intensa que aproxima o corpo humano do corpo-cavalo. Essa fusão não é apenas estética, mas simbólica, criando camadas sobre sobrevivência, resistência e identidade.
O espaço cênico também se transforma ao longo da apresentação. O “palco”, localizado no centro, surge inicialmente no escuro e revela, no segundo ato, montanhas de lixo. A ocupação do espaço é parte da dramaturgia: estética e território não são cenários, são o próprio drama.
Voz coletiva e criação compartilhada
A construção da peça parte de uma lógica coletiva. A própria narrativa é assumida por quem vive o território, e o processo de criação reúne vozes que atuam diretamente na cena — não apenas como intérpretes, mas como estrutura da obra.
“Chegamos até aqui, o rio é a borda desse bairro e a linha férrea também. Navegando por esses espaços chegamos até o lado de cá. Cestas básicas foram nos oferecidas com bastante óleo de soja e açúcar refinado, entupindo nossas veias, deixando nossos batimentos cardíacos cada vez mais lentos”
O espetáculo articula teatro, música e performance como linguagem política. Rappers em cena, tambores, trompete, corpos negros e indígenas, pichação e pele exposta constroem uma estética que recusa neutralidade. A peça se posiciona como território de fala e ação.
O projeto nasce do encontro entre experiências e trajetórias. A dramaturgia “Cavalo” foi desenvolvida no projeto Jardim de Narrativas, do Coletivo Estopô Balaio, e se conecta à criação do grupo Morango sem doce, formado a partir do encontro entre Laís Cafari e Trinity na Escola Livre de Teatro de Santo André.
Trajetória de Laís Cafari
Nascida e criada no Jardim Romano, no extremo leste de São Paulo, Laís Cafari constrói sua trajetória a partir das práticas artísticas de rua e da vivência territorial. Sua atuação inclui o espetáculo itinerante “Reset Brasil”, do Coletivo Estopô Balaio, e a intervenção “Algum desses é seu parente?”.
Além do teatro, também transita pelo audiovisual, desenvolvendo o roteiro “Na Faca” após participação em oficina da Arenga Filmes. Atualmente, integra a Formação 26 da Escola Livre de Teatro de Santo André e participa do Grupo de Produção Geral do Sarau da Permanência.
A artista também participou da residência artística “Marcha das Mulheradxs” e das gravações do filme “tamanduateí: rio de muitas voltas”. Sua trajetória se ancora na pesquisa, na coletividade e na expansão de linguagens.
Serviço
- Peça: Nitrido ou a dramaturgia de Cavalo
- Instagram: @cavaloteatro
- 12 de junho, sexta-feira, às 21h
- 14 de junho, domingo, às 18h com Libras
- Teatro Arthur Azevedo – Av. Paes de Barros, 955 – Alto da Mooca, São Paulo – 03115-020
- 18 de junho, quinta-feira, às 20h
- 20 de junho, sábado, às 20h com Libras
- 21 de junho, domingo, às 19h
- Centro Cultural Penha – Largo do Rosário, 20 – Penha de França, São Paulo – SP, 03634-020
- Classificação indicativa: Livre
- Duração: 90 minutos
- Entrada gratuita









Gostou do nosso conteúdo?
Seu apoio faz toda a diferença para continuarmos produzindo material de qualidade! Se você apreciou o post, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos. Sua ajuda é fundamental para que possamos seguir em frente! 😊