Aos 10 anos de idade, a autora mirim Oyárónké Gino Ivanir dos Santos transforma afetos, ilustrações e vivências em literatura infantil para fortalecer a representatividade antirracista desde a infância.
A escrita criativa encontrou espaço na rotina da menina mineira de nascimento e carioca de coração durante as oficinas do projeto Casa dos Sambistinhas, promovido pelo Movimento das Mulheres Sambistas. Foi nessa vivência que Oyárónké Gino Ivanir dos Santos descobriu nas palavras uma forma de brincar e deu vida à obra As Aventuras da Boneca Oyá, criada e ilustrada por ela própria.
A educação antirracista também pode começar com uma brincadeira, e um livro infantil carrega identidade, memória e futuro.
Inspirada na própria boneca, batizada carinhosamente de Oyá, a autora mirim decidiu colocar as ideias no papel, elaborar personagens e ilustrar as páginas de seu universo particular. Lançada ontem, às vésperas do Dia das Crianças, comemorado em 12 de outubro, a publicação reflete o ambiente familiar em que a menina cresceu, pautado pela valorização das culturas afro-brasileira e africana, pela perspectiva antirracista e pelas vivências de terreiro.

Da escrita infantil à travessia de gerações
Filha de Mariana Gino e do professor, ativista e babalawô Ivanir dos Santos, a autora integra uma iniciativa da Casa dos Sambistinhas que contemplou 18 crianças, sendo nove em setembro e nove em outubro, distribuindo 50 exemplares para cada participante. A trajetória do projeto dialoga diretamente com a história da filósofa Helena Theodoro, aos 83 anos, uma das principais referências do pensamento negro no país.
Nascida em 1943 no bairro da Tijuca, Helena Theodoro é filha de Léa e Jurandyr Theodoro, militantes do movimento negro e fundadores do Renascença Clube. Em 1985, aos 42 anos, ela tornou-se a primeira mulher negra a obter o título de doutora em Filosofia no Brasil, abrindo caminhos na academia. Sua ligação com o samba vem de família, com parentes vinculados à Acadêmicos do Salgueiro e à União da Ilha do Governador, cujas festas de quintal reuniam compositores e ritmistas.
O encontro simbólico entre a intelectual que rompeu barreiras universitárias e a menina que publica sua primeira história reflete a continuidade de lutas e conquistas. Enquanto uma geração abriu portas históricas, a nova geração aprende desde cedo a contar a própria trajetória com autonomia e orgulho.
Serviço
- Livro: As Aventuras da Boneca Oyá
- Autora: Oyárónké Gino Ivanir dos Santos
- Iniciativa: Casa dos Sambistinhas (Movimento das Mulheres Sambistas)
- Aquisição: Publicação sem fins comerciais, com contribuição simbólica sugerida de R$ 30 por meio do perfil @mariana_gino
