Seis décadas após marcar a história da música brasileira, “Os Afro-Sambas” volta ao centro da cena com uma releitura que conecta passado e presente. O álbum “Afro-Sambas 60 anos – Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker”, lançado pela Biscoito Fino nesta sexta-feira, dia 29 de maio, propõe uma escuta contemporânea de um dos trabalhos mais emblemáticos de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Mais do que revisitar um repertório consagrado, o projeto mergulha na essência poética, rítmica e espiritual que transformou o disco original em um marco. A nova gravação preserva o núcleo íntimo da obra — o diálogo entre voz e violão — enquanto amplia suas possibilidades com participações especiais e novos arranjos.
Um reencontro com a essência dos Afro-Sambas
O ponto de partida do álbum está na formação enxuta e expressiva conduzida por Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker. A voz do intérprete, reconhecido por sua trajetória consistente na música brasileira, encontra no violão de Becker — que também assina a direção musical e os arranjos — um território fértil para recriar o espírito original do projeto de 1966.
A partir dessa base, o disco percorre as oito faixas de “Os Afro-Sambas” e incorpora outras quatro composições que dialogam diretamente com esse universo: “Berimbau”, “Consolação”, “Tempo de Amor” e “Labareda”. O resultado é um repertório que respeita a matriz histórica, mas se abre a novas leituras e camadas de significado.
Encontros vocais que ampliam a narrativa
Entre os destaques do álbum está a participação de Ney Matogrosso em “Canto de Ossanha”. O encontro com Marcos Sacramento reúne duas vozes de forte identidade e presença cênica, criando um dos momentos mais aguardados do projeto. A interpretação conjunta reforça a potência dramática da canção e amplia sua dimensão simbólica.
Outras participações femininas também desempenham papel fundamental na construção do disco. Roberta Sá empresta sua interpretação a “Canto de Yemanjá”, enquanto Fabiana Cozza participa de “Tristeza e Solidão”. Ambas trazem consigo trajetórias profundamente ligadas ao samba e às matrizes afro-brasileiras, reforçando o caráter ritualístico e emocional do repertório.
A presença de novas vozes também marca o projeto. Juliane Gamboa, em “Bocochê”, e Ilessi, em “Canto de Xangô”, representam uma geração contemporânea que dialoga com a tradição sem abrir mão de novas perspectivas estéticas. Suas participações ampliam o alcance do álbum e reforçam sua conexão com o presente.
Camadas instrumentais e expansão sonora
Além das vozes, o disco se fortalece com contribuições instrumentais que expandem seu universo sonoro. Yamandu Costa participa em “Tempo de Amor”, criando um encontro de violões que aprofunda o diálogo musical com Zé Paulo Becker. Já o Trio Madeira Brasil marca presença em “Consolação”, reafirmando a relação do projeto com a música instrumental brasileira.
Em “Labareda”, a participação de Silvério Pontes ao lado do Samba do Sacramento amplia a atmosfera coletiva do álbum, trazendo uma sonoridade festiva e profundamente conectada ao Rio de Janeiro. O resultado é uma faixa que rompe momentaneamente a estrutura mais intimista do disco para explorar uma dimensão mais expansiva.
As percussões de Netinho Albuquerque e Leonardo Dias também contribuem para enriquecer o trabalho. Sem deslocar o eixo central do projeto, os elementos rítmicos ampliam a textura sonora e aproximam o álbum da dimensão ritual e popular que atravessa a obra original de Baden Powell e Vinicius de Moraes.
Direção e construção do projeto
“Afro-Sambas 60 anos” nasce de uma idealização conjunta de Zé Paulo Becker, Marcos Sacramento e Phil Baptiste. A direção musical e os arranjos ficam a cargo de Becker, enquanto a direção artística e a produção executiva são assinadas por Baptiste. A produção musical é de Diego do Valle.
A equipe ainda conta com assistência de Leo Justen, Renato Faya e Wallace Ferreira, compondo um time que sustenta a proposta de revisitar a obra sem descaracterizá-la. O resultado é um álbum que respeita a força histórica do material original, ao mesmo tempo em que reafirma sua atualidade.
Faixas e participações
- Canto de Ossanha — com Ney Matogrosso
- Canto de Yemanjá — com Roberta Sá
- Berimbau
- Bocochê — com Juliane Gamboa
- Tristeza e Solidão — com Fabiana Cozza
- Canto de Xangô — com Ilessi
- Canto do Caboclo Pedra Preta
- Consolação — com Trio Madeira Brasil
- Tem Dó
- Tempo de Amor — com Yamandu Costa
- Labareda — com Samba do Sacramento e Silvério Pontes
- Canto de Exu
Serviço
- Lançamento: 29 de maio
- Álbum: Afro-Sambas 60 anos – Marcos Sacramento e Zé Paulo Becker
- Gravadora: Biscoito Fino
- Ouça: https://orcd.co/osafrosambas60anos

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