O Quarteto Enredado retorna com um projeto que amplia as fronteiras da música caipira sem romper com suas raízes. Em “Fantasia Sertaneja”, o grupo transforma a tradição em matéria viva, conduzida pela viola caipira e atravessada por novas possibilidades sonoras.
Lançado nas plataformas digitais, o terceiro álbum do conjunto instrumental de Franca (SP) reafirma a identidade construída ao longo de oito anos de trajetória. A proposta segue clara: unir elementos populares e eruditos em uma linguagem própria, que valoriza a diversidade cultural brasileira e expande o repertório da música de raiz.
A viola como eixo narrativo
Em “Fantasia Sertaneja”, a viola caipira assume papel central, funcionando como fio condutor de um diálogo entre tradição e contemporaneidade. A formação do quarteto — com Ronaldo Sabino (viola), Claryssa Pádua (violão), Daniel R. Palermo (guitarra) e Gabriel Terra (baixo acústico) — sustenta uma sonoridade que se destaca justamente pela combinação incomum de timbres.
O álbum percorre ritmos fundamentais da música caipira, como cateretê, guarânia, arrasta-pé, polca e pagode de viola. Essa diversidade não aparece como uma simples colagem de estilos, mas como parte de uma escuta aprofundada da tradição, que busca compreender e rearticular suas múltiplas influências culturais.
Segundo Gabriel Terra, baixista e responsável pelos arranjos, o projeto nasce de uma investigação contínua: a de compreender como os elementos da música caipira podem dialogar entre si e com outras linguagens.
Esse projeto é muito especial para nós porque busca examinar e expandir as conexões entre os ritmos, melodias e harmonias da música caipira
Releituras que reinventam
Um dos pontos centrais do disco está na forma como o quarteto aborda obras consagradas. Em vez de simples releituras, o grupo propõe verdadeiros processos de reinvenção, criando novas camadas de sentido a partir de repertórios já conhecidos.
Claryssa Pádua destaca que o trabalho parte da memória, mas não se limita a ela. A construção dos arranjos abre espaço para diferentes perspectivas instrumentais, transformando cada faixa em um campo de diálogo entre os músicos.
A gente parte de músicas muito conhecidas, mas olha para elas de outro lugar, abrindo espaço para novas leituras
Esse tratamento aparece em clássicos como “Luar do Sertão”, “Moreninha Linda”, “Lampião de Gás” e “Lá na Roça (Mês de Maria)”. Ao mesmo tempo em que respeita a essência dessas obras, o quarteto imprime uma assinatura própria, marcada por texturas sofisticadas e variações rítmicas.
Entre o Brasil profundo e a forma europeia
Entre as 13 faixas do álbum, um dos destaques é a “Suíte Caipira”, composição autoral de Gabriel Terra estruturada em três movimentos. A obra dialoga diretamente com a tradição das suítes europeias, evocando referências como Johann Sebastian Bach, ao mesmo tempo em que se ancora em ritmos e imagens do interior paulista.
Cada movimento da suíte se inspira em aves típicas da região de Franca, criando paisagens sonoras distintas: “Galinha d’Angola – Cateretê”, “Seriema – Guarânia” e “Curicaca – Arrasta-pé”. A construção musical traduz características desses animais em nuances melódicas, rítmicas e harmônicas, ampliando o campo narrativo do disco.
O repertório também inclui composições de Ronaldo Sabino, como “Viola em Festa” e “Porca Mineira”, que exploram a expressividade da viola em diálogo com ritmos como a polca paraguaia e o batuque de viola.
Participações ampliam o diálogo
As participações especiais reforçam a proposta de ampliar as fronteiras da música instrumental. Ayrton Montarroyos empresta sua voz a “Bandeira do Divino” e “Luar do Sertão”, esta última também com a presença de Bia Góes, que retorna em “Lá na Roça (Mês de Maria)”.
A faixa conta ainda com o percussionista Ricardo Valverde, adicionando novas camadas rítmicas ao trabalho. Essas colaborações aproximam o disco de diferentes matrizes culturais brasileiras, incluindo referências afro-brasileiras que atravessam o repertório.
Trajetória consolidada
Formado em 2018, o Quarteto Enredado construiu uma trajetória marcada pela experimentação e pelo diálogo entre gêneros. A combinação de viola caipira, violão, guitarra e baixo acústico sustenta uma pesquisa que transita entre música caipira, clássica, MPB, jazz e rock.
Com mais de 100 apresentações no Brasil e no exterior, o grupo ganhou projeção em iniciativas como o Instrumental Sesc Brasil e o programa Passagem de Som, do SescTV. O álbum de estreia, “Alma Brasileira” (2022), foi reconhecido na retrospectiva do crítico Solano Ribeiro.
No cenário internacional, o quarteto participou do “2021 Selector’s Shows”, da rádio francesa Kaos Caribou, e realizou a turnê europeia “Alma Brasileira World Tour” em Portugal e Espanha, em 2024.
Um projeto que articula memória e invenção
“Fantasia Sertaneja” sintetiza o momento atual do Quarteto Enredado: um grupo que amadurece sua linguagem ao mesmo tempo em que amplia seu campo de atuação estética. A música caipira aparece, aqui, não como um repertório estático, mas como uma linguagem em transformação contínua.
Ao articular tradição, pesquisa e criação contemporânea, o álbum reafirma a potência da cultura popular brasileira e sua capacidade de dialogar com diferentes universos musicais sem perder identidade.
PRE-SAVE: https://tratore.ffm.to/fantasiasertaneja

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