A arte, o inconsciente e as memórias fluviais se encontram no centro de Florianópolis, revelando facetas profundas sobre a formação social, cultural e territorial de Santa Catarina.
Nesta semana, a Fundação Cultural Badesc transforma-se no epicentro de duas importantes discussões literárias. A programação traz lançamentos que cruzam as linhas da psicanálise e a cartografia da ocupação do Vale do Itajaí, oferecendo um mergulho crítico nas políticas corporais e na convivência secular da população catarinense com as inundações.
O intuito foi organizar e agrupar publicações que estavam dispersas, dando visibilidade e corpo ao que vem sendo desenvolvido.
O primeiro encontro ocorre no dia 20 de outubro, com o livro Políticas do corpo: pesquisa entre arte e psicanálise, organizado pela professora e psicanalista Ana Lúcia Mandelli de Marsillac. A obra marca uma década de produção e de debates dentro do Laboratório de Psicanálise, Processos Criativos e Interações Políticas (LAPCIP), pertencente à Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O corpo, o tempo e a psicanálise
Estruturada em 26 capítulos e dividida em quatro grandes partes, a coletânea reúne ensaios que investigam obras de arte e os inevitáveis diálogos com o tempo em que foram forjadas. Com 604 páginas publicadas pela Editora Fi, na Coleção Poéticas das Emergências, o trabalho agrupa o intelecto de 14 autores nacionais e internacionais.
Natural de Porto Alegre e radicada na capital catarinense há 13 anos, Ana Lúcia enxerga na literatura uma via inseparável da produção acadêmica. A escolha de transferir o debate para além dos muros universitários foi intencional. A meta é criar laços reais com a comunidade de Florianópolis, permitindo que a teoria seja ampliada nos espaços de fruição estética.
Memórias da água: as cheias históricas do Vale
Logo em seguida, no dia 22 de outubro, as dinâmicas da água assumem o protagonismo com o engenheiro químico e escritor Juarez Inácio de Oliveira. Apoiado pelo biólogo Robson Carlos Avi, ele lança Itajaí Rio das Voltas, um denso resgate documental de 150 páginas sobre a fundação de colônias às margens dos rios locais.
O livro destaca episódios singulares, como a descoberta do historiador Lucas Alexandre Boiteux de que o Rio Itajaí correspondia ao “Rio das Voltas”, demarcado no primeiríssimo mapa do Brasil, datado de 1556. Além de repassar a influência dos negócios de Hermann Blumenau, a pesquisa apresenta uma cronologia com 132 enchentes, iniciando antes da formação da Colônia Blumenau até o ano de 2024.
Tecnologia unida ao traço autoral
Um aspecto que desperta enorme curiosidade na obra de Juarez é o impacto visual. O autor, que tradicionalmente inclui desenhos feitos a mão em todos os seus trabalhos, abriu as portas para o uso ético da inteligência artificial. Segundo ele, a ferramenta adaptou suas ilustrações originais em imagens realistas, elevando a experiência estética sem jamais apagar a criatividade humana contida em cada traço.
Sustentado por entidades como a Associação Ambientalista Pimentão e a 4ª Promotoria de Justiça de Rio do Sul, o projeto visa fomentar a conscientização. Todo esse resgate chegará gratuitamente aos gestores do Alto Vale do Itajaí através da campanha “Construa em Área Livre de Enchente”.
Serviço
- Lançamento “Políticas do corpo: pesquisa entre arte e psicanálise”: 20 de outubro, às 18h30. Terá coquetel, leituras e venda de livros físicos.
- Lançamento “Itajaí Rio das Voltas”: 22 de outubro, a partir das 17h. Haverá distribuição de exemplares e sessão de autógrafos.
- Local: Fundação Cultural Badesc, localizada na Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro, Florianópolis.
