A trajetória de José de Anchieta atravessa não apenas a história do Brasil, mas também alguns dos destinos mais emblemáticos do estado de São Paulo. No Dia Nacional de Anchieta, celebrado nesta terça-feira (9), a Secretaria de Turismo e Viagens do Estado (Setur-SP) reuniu locais que ajudam a reconstruir os caminhos percorridos pelo jesuíta no século XVI — um percurso que mistura fé, observação e participação direta na formação do território brasileiro.
Autor da “Carta de São Vicente”, escrita em maio de 1560, Anchieta registrou com detalhes a geografia, a fauna, a flora e os povos da então Capitania de São Vicente. Mais do que um observador, ele foi protagonista em diversos episódios fundamentais da história colonial. Canonizado em 2014, o religioso segue como uma das figuras centrais para compreender o Brasil em seus primeiros séculos.
Itanhaém e os caminhos à beira-mar
Entre os destinos destacados pela Setur-SP está Itanhaém, a segunda cidade mais antiga do Brasil. O município abriga os chamados Caminhos de Anchieta, um roteiro composto por seis pontos que remetem à passagem do jesuíta entre 1563 e 1595.
O circuito inclui a Cama de Anchieta, formação rochosa onde ele descansava e escrevia poemas, além da Passarela de Anchieta, um passadiço suspenso de 220 metros com vista para o mar. O Pocinho de Anchieta, estrutura de pedras construída por indígenas, também integra o percurso, assim como os Painéis de Anchieta, feitos em mosaico.
Completam o roteiro o Monumento a Anchieta, na Praça Narciso de Andrade, e a Igreja Matriz de Sant’Anna, que guarda a imagem da Virgem de Anchieta. A cidade fica a 116 km da capital paulista.
Ubatuba e o poema na areia
Foi nas areias de Iperoig, atual Praia do Cruzeiro, em Ubatuba, que Anchieta escreveu um dos episódios mais conhecidos de sua história. Em 1563, sem papel, ele compôs um poema com mais de 5.700 versos dedicados à Virgem Maria, memorizando cada trecho e registrando os versos na areia com um cajado.
Hoje, a Praia do Cruzeiro é uma extensa faixa de areia com infraestrutura urbana, incluindo calçadão, áreas esportivas, pista de skate, feiras de artesanato e restaurantes. O município também abriga a Ilha Anchieta, batizada em homenagem ao jesuíta. Trata-se da segunda maior ilha do litoral paulista, conhecida por suas trilhas, rica vida marinha, praias e as ruínas de um antigo presídio.
Ubatuba está a 220 km da capital.
Itu e a formação do interior
No interior paulista, Anchieta esteve na aldeia de Maniçoba, às margens do rio Tietê, na atual Itu. Ali, dedicou-se à catequização, ao aprendizado da língua indígena e ao reconhecimento do território.
A cidade mantém essa memória viva no Largo do Bom Jesus, atual Praça Padre Anchieta, onde ficava a antiga capela de Nossa Senhora da Candelária. O local deu origem ao município em 1610 e à atual Igreja Matriz, considerada um dos principais patrimônios do barroco paulista, com altar e órgão de destaque.
Nos arredores, o visitante encontra ainda o Museu Republicano, ligado à USP, além de elementos turísticos conhecidos da cidade, como o Semáforo Gigante e o Orelhão Gigante. Itu está a 96 km de São Paulo.
São Paulo e o marco da fundação
A capital paulista concentra alguns dos principais marcos ligados diretamente à atuação de Anchieta. O Pateo do Collegio, considerado o Marco Zero da cidade, foi fundado em 1554 pelo padre Manoel da Nóbrega, com participação de Anchieta.
No local, a Igreja São José de Anchieta preserva relíquias do santo e elementos da arquitetura barroca paulista. Já o Museu Anchieta reúne objetos históricos e apresenta uma maquete da antiga Vila de São Paulo de Piratininga, oferecendo uma visão detalhada do início da cidade.
Na Praça da Sé, o Monumento a Anchieta, escultura em bronze inaugurada em 1954, celebra o quarto centenário da capital e reforça a presença simbólica do jesuíta na formação da metrópole.
Outros caminhos pelo litoral
Anchieta também passou por outras localidades que hoje são destinos turísticos. Em São Vicente, onde chegou em 1553, aprendeu tupi e escreveu a primeira gramática indígena da história.
No Guarujá, atuou na Ermida de Santo Antônio do Guaibê, uma das primeiras igrejas do Brasil, construída com pedras de sambaquis, óleo de baleia e conchas. Já em Bertioga, hospedou-se no Forte de São João antes de seguir para missões no litoral norte.
Uma origem que atravessa continentes
Nascido em 1534, na ilha de Tenerife, nas Canárias (Espanha), José de Anchieta tinha ascendência judaica sefardita e era parte de uma família de cristãos-novos. Diante das restrições da época, foi enviado a Portugal, onde estudou na Universidade de Coimbra.
Aos 17 anos, ingressou na Companhia de Jesus e, em julho de 1553, chegou ao Brasil após dois meses de viagem, desembarcando em Salvador. Ainda naquele ano, seguiu para a Capitania de São Vicente e participou da fundação de São Paulo, em janeiro de 1554.
Anchieta morreu em 1597, no Espírito Santo, deixando um legado que ultrapassa a religião e se estende à cultura, à língua e à própria construção histórica do país.

Gostou do nosso conteúdo?
Seu apoio faz toda a diferença para continuarmos produzindo material de qualidade! Se você apreciou o post, deixe seu comentário, compartilhe com seus amigos. Sua ajuda é fundamental para que possamos seguir em frente! 😊
